Índice Geral de Postagens
Quer ler algum texto interessante de filosofia? Estudar e ao mesmo tempo se entreter? Leia nossas postagens.
ÍNDICE DE TEXTOS:
O que fazemos para ajudar o próximo?
Afeto: uma questão de necessidade ou desespero?
Games violentos: inofensivos ou perigosos?
O problema da homofobia em nossa região
Amor e possessão
Filosofia: o começo das ciências
Música: sua presença e suas influências
Sonhos: fantasias ou planos?
Liberdade de expressão na internet
Os padrões de beleza e suas influências
A importância da busca do Equilíbrio nos dias de hoje
Morte: como será o nosso destino final?
O problema da baixa autoestima entre os jovens
A Influência da Mídia na Sociedade Moderna
Os vícios e seus perigos
A verdadeira face da Copa do Mundo de Futebol no Brasil
O tempo e os compromissos
As consequências da falta de ética na política
Entrevista de emprego: a porta de entrada para um futuro melhor
Pesquisa: a música e sua presença na vida das pessoas
Estudar e Trabalhar: uma tarefa difícil!
Uma reflexão sobre o poder da música
O uso do celular na escola
5
Afeto: uma questão de necessidade ou desespero?
Games violentos: inofensivos ou perigosos?
O problema da homofobia em nossa região
Amor e possessão
Filosofia: o começo das ciências
Música: sua presença e suas influências
Sonhos: fantasias ou planos?
Liberdade de expressão na internet
Os padrões de beleza e suas influências
A importância da busca do Equilíbrio nos dias de hoje
Morte: como será o nosso destino final?
O problema da baixa autoestima entre os jovens
A Influência da Mídia na Sociedade Moderna
Os vícios e seus perigos
A verdadeira face da Copa do Mundo de Futebol no Brasil
O tempo e os compromissos
As consequências da falta de ética na política
Entrevista de emprego: a porta de entrada para um futuro melhor
Pesquisa: a música e sua presença na vida das pessoas
Estudar e Trabalhar: uma tarefa difícil!
Uma reflexão sobre o poder da música
O uso do celular na escola
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Filosofia da Informação
Seu intuito é refletir sobre a avalanche de informações geradas e consumidas no mundo atual. Mas suas primeiras indagações procuram pela base dessa sociedade do conhecimento. Em Heráclito, Parmênides e Ilharco
Nesse contexto, surge a Filosofia da Informação, uma área que se dedica a fazer uma reflexão filosófica fundamental sobre a informação. É um questionar de forma tão basilar e fundamental quanto o é o questionar fundador dos variados ramos da Filosofia: o que é ser? (Ontologia), o que é conhecer? (Epistemologia), o que é a Linguagem? (Filosofia da Linguagem), o que é a mente, a consciência, o bem e o mal, o pensamento etc., explica um dos maiores expoentes da Filosofia da Informação, Fernando Ilharco, no livro Filosofia da Informação. Assim, como um campo da pesquisa filosófica voltado para a investigação crítica da estrutura conceitual e dos princípios básicos da informação e, ainda, para a sua elaboração, a tarefa da Filosofia da Informação deve pressupor, sobretudo, que um problema ou uma explicação pode ser legítimo e genuinamente reduzido a um problema de cunho essencialmente informacional.
Conceituar a Filosofia da Informação por esses aspectos evidencia vantagens e desvantagens, afirma Ilharco, pois a “sua grande vantagem é a de ter identificado clara e simplesmente a questão fundadora da área: a natureza da informação. O seu principal defeito, quanto a nós, é o de tentar detalhar demasiado a ideia central, chave e aglutinadora dessa nova área do conhecimento. Desse modo, a segunda parte da definição é problemática porque a elaboração e a utilização de metodologias teóricas informacionais e computacionais na investigação filosófica, e obviamente científica, é um dos problemas, uma das várias áreas de investigação da própria Filosofia da Informação. Nesse viés, a tecnologia de informação ao serviço da atividade intelectual do homem é uma das questões centrais da Filosofia da Informação, porventura uma das mais relevantes.
Por transformar comportamentos, valores, estruturas e estratégias, a disseminação das tecnologias da informação e da comunicação (TICs) traz à tona novos desafios e problemas à humanidade. Ao mesmo tempo em que as TICs abrem numerosas possibilidades de atuação e, por isso, mais oportunidades, elas também possibilitam o surgimento de práticas profundamente questionáveis no âmbito da Ética e da Moral. São questões relacionadas à dignidade humana, aos direitos individuais, à privacidade, à responsabilidade social, à solidariedade e à partilha de valores pela comunidade, entre outras.
Tais questões, muitas vezes, surgem em paralelo a processos de mudança ocorridos seja em uma organização, em um país ou mesmo na comunidade internacional. Quase sempre os envolvidos tendem a reagir
Tais questões, muitas vezes, surgem em paralelo a processos de mudança ocorridos seja em uma organização, em um país ou mesmo na comunidade internacional. Quase sempre os envolvidos tendem a reagir
com
receio. Os avanços da Ciência e da Tecnologia, especialmente os desenvolvimentos na Genética e na Biotecnologia, têm de igual modo colocado desafios éticos e morais profundos.Nesse contexto, surge a Filosofia da Informação, uma área que se dedica a fazer uma reflexão filosófica fundamental sobre a informação. É um questionar de forma tão basilar e fundamental quanto o é o questionar fundador dos variados ramos da Filosofia: o que é ser? (Ontologia), o que é conhecer? (Epistemologia), o que é a Linguagem? (Filosofia da Linguagem), o que é a mente, a consciência, o bem e o mal, o pensamento etc., explica um dos maiores expoentes da Filosofia da Informação, Fernando Ilharco, no livro Filosofia da Informação. Assim, como um campo da pesquisa filosófica voltado para a investigação crítica da estrutura conceitual e dos princípios básicos da informação e, ainda, para a sua elaboração, a tarefa da Filosofia da Informação deve pressupor, sobretudo, que um problema ou uma explicação pode ser legítimo e genuinamente reduzido a um problema de cunho essencialmente informacional.
| Delmo Mattos é doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi professor de Ética Aplicada do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Gama Filho e é o atual professor responsável pelas disciplinas Ética e Responsabilidade Social, Conduta Ética e o Juiz e a Ética dos cursos de aperfeiçoamento da Fundação Getulio Vargas. delmomattos@ hotmail.comwww.portalcienciaevida.com.br |
VISLUMBRAMOS UMA SOCIEDADE QUEPRODUZ, A CADA DIA, MAIS INFORMAÇÃO, MAS NÃO SE PREOCUPA EM REFLETIR SOBRE COMO ESSA INFORMAÇÃO ESTÁ SENDO PROPAGADA
SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO
“Sociedade da informação ou do conhecimento” é uma expressão comumente utilizada para designar uma forma de organização social, econômica e cultural que tem como base, tanto material quanto simbólica, o fenômeno da informação. Essa sociedade, assim organizada, contém uma forma nova de processos sociais cuja consequência é a emergência de um novo paradigma cultural, ou seja, aquele em que a humanidade abandona suas bases originais na agricultura, posteriormente na manufatura e na industrialização, para ingressar na economia da informação, na qual a manipulação da informação é a atividade principal e fundamental.
“Sociedade da informação ou do conhecimento” é uma expressão comumente utilizada para designar uma forma de organização social, econômica e cultural que tem como base, tanto material quanto simbólica, o fenômeno da informação. Essa sociedade, assim organizada, contém uma forma nova de processos sociais cuja consequência é a emergência de um novo paradigma cultural, ou seja, aquele em que a humanidade abandona suas bases originais na agricultura, posteriormente na manufatura e na industrialização, para ingressar na economia da informação, na qual a manipulação da informação é a atividade principal e fundamental.
O cenário no qual surge essa transformação sociocultural é caracterizado, sobretudo, pelo uso das TICs, que expressam a essência da transformação que perpassa a sociedade atual no âmbito econômico, político e epistemológico. Segundo Castells, em seu livro A sociedade em rede, “nenhum outro modo de desenvolvimento valorizou tanto as tecnologias do conhecimento e da informação como o modo informacional de desenvolvimento do capitalismo atual”.
| O novo contexto de informação surge de forma efêmera e estreitamente vinculada às novas tecnologias |
Essa forma informacional de desenvolvimento instalou-se no período em que o modo de produção capitalista detectou uma impossibilidade técnica e de manutenção da ampliação dos indicadores de desempenho, tais como custos, produtividade do capital e do trabalho, obtidos predominantemente no segundo pós-guerra. Nesse momento, a competência do desenvolvimento capitalista, no sentido de apropriação de lucros crescentes dos investimentos realizados, é questionada, forçando a adoção de um novo padrão tecnológico que permitia recriar as condições de valorização do capital, como explica Mattelart, no livro História da sociedade da informação. Utilizando as características desse paradigma emergente, podem-se destacar expectativas positivas e negativas em relação à sociedade da informação. Em primeiro lugar, esse modelo de sociedade permitiu a velocidade do tempo real, com amplas possibilidades de controle, armazenamento e liberação de acesso a múltiplos conjuntos de informações. Além disso, há de se evidenciar que as novas tecnologias da informação desempenharam papel decisivo ao facilitarem o surgimento do “capitalismo flexível” e rejuvenescido, proporcionando ferramentas para a formação de redes, de comunicação a distância, de armazenamento e de processamento de informação, de individualização coordenada do trabalho e de concentração e descentralização simultâneas do processo decisório.
De acordo com o que menciona Ilharco em Filosofia da Informação, “por intermédio da tecnologia, redes de capital, de trabalho, de informação e de mercados conectaram funções, pessoas e locais valiosos ao redor do mundo”. Ao mesmo tempo, desconectaram as populações e territórios desprovidos de valor e interesse para a dinâmica do capitalismo global. Como consequência disso, assistimos à exclusão social e desintegração econômica de segmentos de sociedades, de áreas urbanas, de regiões e de países inteiros. Além do mais, são consideráveis as mudanças introduzi-das em nosso padrão de sociabilidade, contribuindo para que a relação dos indivíduos e da sociedade sofra alterações consideráveis e ocasionando efeitos negativos sobre todos os domínios da atividade humana.
Nesse contexto, pode-se perfeitamente observar a estrutura da condição de reflexão na sociedade, de tal forma que se questiona como podemos vislumbrar uma sociedade que produz a cada dia mais informação, mas não se preocupa em refletir sobre como essa informação está sendo posta, propagada, recebida e manipulada. Essas questões demonstram um propósito muito amplo, pois é a partir dessas reflexões que se pode, futuramente, resolver problemas relacionados não só à questão do gerenciamento da informação, mas também ao seu conteúdo, a sua forma de atingir o receptor, visando prioritariamente a interação da informação na sociedade na qual vivemos.
De acordo com o que menciona Ilharco em Filosofia da Informação, “por intermédio da tecnologia, redes de capital, de trabalho, de informação e de mercados conectaram funções, pessoas e locais valiosos ao redor do mundo”. Ao mesmo tempo, desconectaram as populações e territórios desprovidos de valor e interesse para a dinâmica do capitalismo global. Como consequência disso, assistimos à exclusão social e desintegração econômica de segmentos de sociedades, de áreas urbanas, de regiões e de países inteiros. Além do mais, são consideráveis as mudanças introduzi-das em nosso padrão de sociabilidade, contribuindo para que a relação dos indivíduos e da sociedade sofra alterações consideráveis e ocasionando efeitos negativos sobre todos os domínios da atividade humana.
Nesse contexto, pode-se perfeitamente observar a estrutura da condição de reflexão na sociedade, de tal forma que se questiona como podemos vislumbrar uma sociedade que produz a cada dia mais informação, mas não se preocupa em refletir sobre como essa informação está sendo posta, propagada, recebida e manipulada. Essas questões demonstram um propósito muito amplo, pois é a partir dessas reflexões que se pode, futuramente, resolver problemas relacionados não só à questão do gerenciamento da informação, mas também ao seu conteúdo, a sua forma de atingir o receptor, visando prioritariamente a interação da informação na sociedade na qual vivemos.
UMA CONCEPÇÃO DE INFORMAÇÃO
Ainda que haja definições e direcionamentos diferenciados sobre a sociedade da informação, há nela algo de comum que desemboca em uma combinação das configurações e aplicações da informação com as tecnologias da comunicação em todas as suas possibilidades. Devemos indagar, com isso, o significado de informação. Certamente, há várias repostas possíveis para essa pergunta, dependendo de quem responde ou de sua área de atuação. Porém, o que deve ser de maior importância é: qual é o significado do conteúdo informacional? Para que serve a informação?
Ainda que haja definições e direcionamentos diferenciados sobre a sociedade da informação, há nela algo de comum que desemboca em uma combinação das configurações e aplicações da informação com as tecnologias da comunicação em todas as suas possibilidades. Devemos indagar, com isso, o significado de informação. Certamente, há várias repostas possíveis para essa pergunta, dependendo de quem responde ou de sua área de atuação. Porém, o que deve ser de maior importância é: qual é o significado do conteúdo informacional? Para que serve a informação?
| O que distingue a informação de outros fenômenos associados, como os dados, o conhecimento, a ação, as ideias, as noções, o ser, a diferença? |
| SEGUNDO HERÁCLITO, a unidade brota da diversidade, da tensão dos opostos. A harmonia do universo resulta da coincidência dos distintos, e o nascimento e conservação dos seres se devem a um conflito de contrários |
A fim de responder a esses questionamentos, devemos nos concentrar na reflexão promovida por Hjørland e Capurro, no livro The concept of information: “Examinando a história dos usos de uma palavra, nós encontramos algumas das formas primitivas ou contextos que sustentam as práticas científicas de nível mais elevado. Isso reduz as expectativas que temos em relação a conceitos unívocos de nível mais elevado, e ajuda-nos a gerenciar melhor a vagueza e a ambiguidade. Questionar a terminologia moderna, olhar mais atentamente para as relações entre signos, significado e referências e prestar atenção às transformações dos contextos históricos ajudam-nos a compreender como usos presentes e futuro das palavras estão entrelaçados. (...) Tal revisão crítico-histórica torna possível uma melhor compreensão dos conceitos de informação de nível mais elevado no período helenístico, assim como na Idade Média e nos tempos modernos”.
Por outro viés, Floridi (1964), professor de Lógica e Epistemologia na Universidade de Bari, na Itália, e do Departamento de Ciência da Computação em Oxford, na Inglaterra – onde também coordena um grupo de pesquisa sobre Ética e Informação –, indica um caminho diferente e interessante ao propor uma Filosofia da Informação. Em seu célebre artigo What is the Philosophy of Information? (O que é a Filosofia da Informação?), Floridi propõe refletir filosoficamente sobre a informação relacionada intrinsecamente à lógica informática e computacional, na qual as teorias semânticas, matemática e comunicacional apresentam-se como fundamentos imprescindíveis para o seu empreendimento. Diante desse aspecto, segundo Floridi, no campo delimitado pela questão “o que é a informação?”, a Filosofia da Informação estabelece um duplo programa de investigação, do qual nos interessa especificamente a primeira parte, ou seja, “a que diz respeito à investigação crítica da natureza conceitual e dos princípios básicos da informação, incluindo a sua dinâmica, utilização e ciências”, informa Floridi no livro Information: a very short introduction.
| O problema da informação: Heráclito e Parmênides Utilizando-se de um perfil diferenciado do que é a informação, Ilharco evidencia o cruzamento desses dois critérios, os quais refletem dois dos temas primários e fundadores da Filosofia, isso é, a Ontologia (o estudo da natureza do ser) e a Epistemologia (o estudo da natureza do conhecer). Por conseguinte, essas duas áreas configuram quatro posições distintas, no âmbito das quais, o mundo, as coisas, os homens, a ação, as distinções, a informação nos surgem a priori
com
determinadas características e contornos. Nas palavras de Ilharco: “no que respeita à epistemologia, encontramos no extremo esquerdo desta matriz metodológica as posições que defendem de uma forma radical a natureza eminentemente subjetiva, localizada e centrada no indivíduo do conhecimento”.A partir dessa posição extrema, não é possível argumentar se existe ou não um mundo aí fora. No extremo oposto desse eixo epistemológico, encontra-se as posições objetivistas puras, as quais assumem existir um mundo externo e objetivo, igual para todos, o qual, por isso, podemos medir, quantificar e analisar independentemente de qualquer experiência subjetiva. Por outro lado, quanto ao eixo ontológico, que varia entre as duas posições opostas e fundadoras da Filosofia Ocidental: da tese de Heráclito (540 a.C.- c.480 a.C.) – para o qual tudo estava sempre em mudança e, por isso, “nunca poderemos mergulhar duas vezes no mesmo rio – à tese de Parmênides (515a.C. - ?) para o qual a mudança era impossível, por isso, tudo sempre permanecendo tal como é. Diante dessa distensão argumentativa e conceitual pode-se compreender o postulado pelo qual Heráclito afirma ser a essência do real o devir, isso é, vir a ser, tornar-se, ou melhor, fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes. Heráclito estabelece como princípio do devir o fogo. Tudo procede desse fogo eternamente vivo e tudo deve voltar ao mesmo fogo para surgir de novo em um processo circular de nascimento e destruição. E se a realidade é devir e o princípio do devir é o fogo em que tudo coincide, o todo é único, o Uno. Heráclito concebe esse fogo que tudo unifica com inteligência e divindade como lógos. Parmênides de Eleia erige uma posição oposta à de Heráclito. Segundo este só se pode pensar sobre aquilo que permanece sempre idêntico a si mesmo, isso é, que o pensamento não pode pensar sobre as coisas que são e não são, que ora são de um modo e ora são de outro, que são contrárias a si mesmas e contraditórias. O que é percebido pelas sensações, por outro lado, é enganoso e falso, e pertence ao domínio do “não-ser”. Segundo Ilharco, não se trata simplesmente de discorrer sobre ele, mas de mostrá-lo na e como Linguagem, isto é, como lógos (2004, p. 21). Nessa linguagem originária, a palavra traz consigo o que se pensa. E Heráclito, enquanto pensa o princípio ordenador do mundo (..sµ..), pensa o ser. Ser este que, do ponto de vista ontológico, é o que confere à realidade a sua origem e a sua ordem. Dessa forma, esse não pode, por sua condição ontológica, ser determinado. Por conseguinte, o ser enquanto dito pela linguagem originária é, então, desvelado; mas des-velado aqui não é, e não se deve aproximar de determinado. É esse princípio que confere determinação às coisas e, é ele mesmo (enquanto princípio) que se oculta nessa determinação. Dessa forma, o que é pensado por Heráclito, ou seja, esse movimento de des-velamento (do ser das coisas) e velamento (do ser enquanto princípio de determinação) configura-se como a própria exposição da physis em seu caráter essencial enquanto princípio ordenador. |
Tal perspectiva é inteiramente consistente com o argumento de Floridi de que a Filosofia da Informação possui um papel fundacional relativo à Ciência da Informação na medida em que “esta está primariamente preocupada com as fontes de informação e não com o conhecimento, pelo que a Filosofia da Informação, e não a Epistemologia, fala de informação”, explica no mesmo livro. Para ratificar essa posição, é preciso adentrar nos meandros da temática para que se possa efetivamente julgar os valores inseridos na relação entre Filosofia e informação. Na medida em que se apropria da questão “o que é a informação?”, fica patente que a Filosofia da Informação, não está naturalmente desamparada por outras Ciências, ela utiliza a crítica dos métodos, teorias e quadros conceituais que as Ciências da Informação, da Comunicação e da Computação desenvolveram ao longo dos tempos. Essa é a questão por excelência fundadora de qualquer disciplina filosófica (o que é o ser? o que é o bem? o que é a verdade?) e um problema genuinamente propenso à investigação crítica e criativa, capaz de soluções diferentes e potencialmente irreconciliáveis, explica Floridi.
Nesse contexto, a pergunta mais radical e elementar, “o que é a informação?”, implica necessariamente uma resposta adequada e urgente, sem a qual a Ciência da Informação não passará nunca de um mero equívoco acadêmico e de um artifício corporativo a serviço de determinado grupo socioprofissional, assim como afirma Floridi.
Nesse contexto, a pergunta mais radical e elementar, “o que é a informação?”, implica necessariamente uma resposta adequada e urgente, sem a qual a Ciência da Informação não passará nunca de um mero equívoco acadêmico e de um artifício corporativo a serviço de determinado grupo socioprofissional, assim como afirma Floridi.
FILOSOFIA E INFORMAÇÃO: A ONTOLOGIA DA INFORMAÇÃO
A Filosofia da Informação é uma área relativamente nova e que está à procura de seu reconhecimento formal como um campo de pesquisa filosófica, mas ela possui um grande potencial que é proporcionar uma reflexão de base, sob uma mesma perspectiva de fundo – a informação –, sobre os pressupostos, os métodos, os problemas e as soluções de uma parte cada vez maior das atividades científicas, culturais, sociais e profissionais nas sociedades desenvolvidas, como lembra Ilharco emFilosofia da Informação: alguns problemas fundadores.
Nesse sentido, Floridi delimita o campo dos estudos filosóficos acerca da informação, iniciando por contextualizá -lo historicamente, caracterizando-o como um campo novo e sugerindo que seja abarcado pela expressão Filosofia da Informação, definida por ele no artigo What is Philosophy of Information? Metaphilosophy nos seguintes termos: “(...) campo filosófico que se dedica a: a) investigação crítica da natureza conceitual e dos princípios básicos da informação, incluindo sua dinâmica, utilização e ciências, e b) elaboração e aplicação de metodologias teóricas e computacionais da informação a problemas filosóficos”.
A Filosofia da Informação é uma área relativamente nova e que está à procura de seu reconhecimento formal como um campo de pesquisa filosófica, mas ela possui um grande potencial que é proporcionar uma reflexão de base, sob uma mesma perspectiva de fundo – a informação –, sobre os pressupostos, os métodos, os problemas e as soluções de uma parte cada vez maior das atividades científicas, culturais, sociais e profissionais nas sociedades desenvolvidas, como lembra Ilharco emFilosofia da Informação: alguns problemas fundadores.
Nesse sentido, Floridi delimita o campo dos estudos filosóficos acerca da informação, iniciando por contextualizá -lo historicamente, caracterizando-o como um campo novo e sugerindo que seja abarcado pela expressão Filosofia da Informação, definida por ele no artigo What is Philosophy of Information? Metaphilosophy nos seguintes termos: “(...) campo filosófico que se dedica a: a) investigação crítica da natureza conceitual e dos princípios básicos da informação, incluindo sua dinâmica, utilização e ciências, e b) elaboração e aplicação de metodologias teóricas e computacionais da informação a problemas filosóficos”.
| Várias definições que têm sido implementadas admitem a informação como mecanismo de interação entre os seres humanos |
A FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO É UMA ÁREA RELATIVAMENTE NOVA E QUE ESTÁ À PROCURA DE SEU RECONHECIMENTO FORMAL COMO UM CAMPO DE PESQUISA FILOSÓFICA
| A informação, como interação social, só existe em movimento. Desse modo, é preciso que haja um criador e um receptor, observando seu impacto social |
Ilharco evidencia, em Filosofia da Informação, que “a problemática da informação emerge intrinsecamente ligada à expansão tecnológica mais rápida da história, a das tecnologias de informação e de comunicação (TIC)”. Se Floridi afirma que a Filosofia da Informação procura expandir a fronteira de pesquisa filosófica, visto que inclui novas áreas à sua investigação porque não coloca juntos tópicos preexistentes, proporcionando uma reordenação do cenário filosófico, para Ilharco, de uma forma determinada a Filosofia da Informação não se constitui como método da verdade, mas da dúvida. Ou seja, uma determinada postura que contempla uma realidade apropriada pelo ser humano, na qual o conhecimento tenta ser conhecimento e a Ciência tenta unicamente ser Ciência.
Seguindo essa perspectiva, pode-se afirmar que a Filosofia da Informação configura-se como primogênita na reflexão e nos questionamentos dos vários assuntos e fenômenos, como afirma Floridi: a Filosofia da Informação privilegia a informação como o seu tópico central, em detrimento da computação, porque ela analisa a última pressupondo a primeira. Por outro lado, a Filosofia da Informação trata a questão da computação apenas como um dos processos – e talvez o mais importante – em que a informação está envolvida. Dessa forma, essa área deve ser tomada como Filosofia da Informação, e não apenas definida em sentido estrito como Filosofia da Computação, tal como a Epistemologia é a Filosofia do Conhecimento e não apenas a Filosofia da Percepção, menciona Floridi citando Ilharco.
Seguindo essa perspectiva, pode-se afirmar que a Filosofia da Informação configura-se como primogênita na reflexão e nos questionamentos dos vários assuntos e fenômenos, como afirma Floridi: a Filosofia da Informação privilegia a informação como o seu tópico central, em detrimento da computação, porque ela analisa a última pressupondo a primeira. Por outro lado, a Filosofia da Informação trata a questão da computação apenas como um dos processos – e talvez o mais importante – em que a informação está envolvida. Dessa forma, essa área deve ser tomada como Filosofia da Informação, e não apenas definida em sentido estrito como Filosofia da Computação, tal como a Epistemologia é a Filosofia do Conhecimento e não apenas a Filosofia da Percepção, menciona Floridi citando Ilharco.
| Seria possível uma visibilidade conceitual e ontológica sobre toda a informação produzida e consumida? |
Se realmente for assim, compreende-se como atribuição da Filosofia da Informação o modo de conceber a informação pela episteme, penetrando
com
certa profundidade em conceitos sobre o que é a informação propriamente dita. Para tanto, se é necessário e relevante pensar dessa forma, também essa configuração de pensamento pode ocasionar certo contraste, na medida em que não se preocupa em observar e questionar o que está aparente, o que é visível, ou seja, a informação de forma propagável, mas sim em realizar algumas indagações do tipo “de onde essa informação surgiu?”, “como ela se deu?” e “por quem ela se deu?”, o que nos faz perceber a importância do conceito antes do conceito, ou seja, a Epistemologia. Segundo Ilharco, “no que diz respeito à Epistemologia, encontramos no extremo esquerdo dessa matriz metodológica as posições que defendem de uma forma radical a natureza eminentemente subjetiva, localizada e centrada no indivíduo do conhecimento”.
Sobre essa questão, Ilharco exprime-se com mais propriedade dessa forma: “O problema epistemológico – em termos epistemológicos, isto é, no domínio do tipo e das características do conhecimento que poderemos procurar obter e eventualmente dominar sobre o fenômeno informação, o que, por isso, dependerá necessa-riamente do tipo de pressupostos ontológicos em que assentar a investigação, a questão que primeiro se coloca é verdadeiramente surpreendente. Como pensar e refletir sobre a forma como procurar conhecimento – qualquer que seja o modo como entendamos esse tipo de conhecimento – sem antes esclarecer a natureza da própria informação que acedemos, precisamente na tentativa de ganhar conhecimento? Ao colocar a questão epistemológica, a questão da natureza do conhecimento, sem ter endereçado a natureza da informação, terá a Filosofia dado um pulo demasiado longo? Terá a Filosofia esquecido a questão da informação ao ter avançado para a questão do conhecimento? Será possível pensar a Epistemologia sem pensar a informação? Essas questões são tão novas e revolucionárias que poderão mesmo vir a contribuir para a emergência de um novo paradigma intelectual, filosófico e científico”, afirma em Filosofia da Informação: alguns problemas fundadores.
Sobre essa questão, Ilharco exprime-se com mais propriedade dessa forma: “O problema epistemológico – em termos epistemológicos, isto é, no domínio do tipo e das características do conhecimento que poderemos procurar obter e eventualmente dominar sobre o fenômeno informação, o que, por isso, dependerá necessa-riamente do tipo de pressupostos ontológicos em que assentar a investigação, a questão que primeiro se coloca é verdadeiramente surpreendente. Como pensar e refletir sobre a forma como procurar conhecimento – qualquer que seja o modo como entendamos esse tipo de conhecimento – sem antes esclarecer a natureza da própria informação que acedemos, precisamente na tentativa de ganhar conhecimento? Ao colocar a questão epistemológica, a questão da natureza do conhecimento, sem ter endereçado a natureza da informação, terá a Filosofia dado um pulo demasiado longo? Terá a Filosofia esquecido a questão da informação ao ter avançado para a questão do conhecimento? Será possível pensar a Epistemologia sem pensar a informação? Essas questões são tão novas e revolucionárias que poderão mesmo vir a contribuir para a emergência de um novo paradigma intelectual, filosófico e científico”, afirma em Filosofia da Informação: alguns problemas fundadores.
AS SOCIEDADES MAIS AVANÇADAS BASEIAM A COMUNICAÇÃO ENTRE AS PESSOAS E AS INSTITUIÇÕES EM INFORMAÇÃO GERADA E GERIDA POR TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO
| NA PERSPECTIVA de Parmênides, o conhecer acontece na medida em que se alcança o idêntico, o imutável. Os sentidos oferecem a imagem de um mundo em incessante mudança, num fluxo perpétuo, onde nada permanece idêntico a si mesmo |
É mediante esse sentido que Ilharco menciona, no mesmo texto, que o “que há de novo na Filosofia da Informação, e por isso a sua maior força e promessa, é a possibilidade de, sob um mesmo paradigma, não apenas no âmbito de uma mesma teoria ou proposta ontológica ou epistemológica, mas sob uma mesma perspectiva de fundo, a da informação, poder proporcionar a reflexão fundamental e crítica sobre os pressupostos, os métodos, as investigações, as descobertas, as dúvidas, os problemas e as soluções, de uma cada vez maior parte das atividades cientificas, comunicacionais, tecnológicas, culturais, sociais e profissionais das sociedades desenvolvidas”.
Diante do que foi mencionado, Ilharco tece as seguintes considerações: “As sociedades contemporâneas mais avançadas baseiam as suas atividades, a comunicação entre as pessoas e as instituições em informação gerada e gerida por tecnologias de informação. Esse desenvolvimento tem provocado alterações importantes em termos políticos, sociais, econômicos e ambientais”. Desse modo, pode-se dizer que a Filosofia da Informação é assim um projeto destinado a consolidar uma área de investigação autônoma, por isso versando sobre questões originadas e relacionadas à emergência da denominada sociedade da informação. Em termos mais gerais, a Filosofia da Informação nada mais é do que uma colocação filosófica, sem pressupostos, como rigor e radicalidade da questão da informação. Em outras palavras, trata-se de uma tentativa de pensar filosoficamente a informação. Para tanto, propõe-se como base as seguintes indagações, segundo a óptica de Ilharco: O que é informação? O que é a informação? Quais são as dinâmicas e modos de ser da informação? O que distingue a informação de outros fenômenos a ela associados, como, por exemplo, os dados, o conhecimento, a ação, as ideias, as noções, o ser, a diferença? A sociedade da informação é a sociedade de quê?
Diante do que foi mencionado, Ilharco tece as seguintes considerações: “As sociedades contemporâneas mais avançadas baseiam as suas atividades, a comunicação entre as pessoas e as instituições em informação gerada e gerida por tecnologias de informação. Esse desenvolvimento tem provocado alterações importantes em termos políticos, sociais, econômicos e ambientais”. Desse modo, pode-se dizer que a Filosofia da Informação é assim um projeto destinado a consolidar uma área de investigação autônoma, por isso versando sobre questões originadas e relacionadas à emergência da denominada sociedade da informação. Em termos mais gerais, a Filosofia da Informação nada mais é do que uma colocação filosófica, sem pressupostos, como rigor e radicalidade da questão da informação. Em outras palavras, trata-se de uma tentativa de pensar filosoficamente a informação. Para tanto, propõe-se como base as seguintes indagações, segundo a óptica de Ilharco: O que é informação? O que é a informação? Quais são as dinâmicas e modos de ser da informação? O que distingue a informação de outros fenômenos a ela associados, como, por exemplo, os dados, o conhecimento, a ação, as ideias, as noções, o ser, a diferença? A sociedade da informação é a sociedade de quê?
Diante de tais indagações, Ilharco conceitua a Filosofia da Informação sob dois aspectos que merecem ser lembrados: “a) a investigação crítica da natureza conceitual e dos princípios de base da informação, incluindo as suas dinâmicas, especialmente a computação e o fluxo informacional, a sua utilização e as suas ciências; b) a elaboração de metodologias teóricas informacionais e computacionais e a aplicação dessas a problemas filosóficos”.
| O filósofo italiano Luciano Floridi é pioneiro nas investigações acerca da Filosofia da Informação |
Conceituar a Filosofia da Informação por esses aspectos evidencia vantagens e desvantagens, afirma Ilharco, pois a “sua grande vantagem é a de ter identificado clara e simplesmente a questão fundadora da área: a natureza da informação. O seu principal defeito, quanto a nós, é o de tentar detalhar demasiado a ideia central, chave e aglutinadora dessa nova área do conhecimento. Desse modo, a segunda parte da definição é problemática porque a elaboração e a utilização de metodologias teóricas informacionais e computacionais na investigação filosófica, e obviamente científica, é um dos problemas, uma das várias áreas de investigação da própria Filosofia da Informação. Nesse viés, a tecnologia de informação ao serviço da atividade intelectual do homem é uma das questões centrais da Filosofia da Informação, porventura uma das mais relevantes.
| É impossível separar o conceito de sociedade do conceito de informação, pois não existe sociedade que se estrutura sem informação |
Diante dessa afirmativa, Ilharco menciona em Filosofia da Informação: alguns problemas fundadores: “Questionar em termos fundamentais o que é a informação é algo semelhante a questionarmos o que é o homem ou o que é conhecimento. Trata-se de questões primeiras, de base e por isso fundadoras do entendimento mais decisivo quanto ao tipo de ser que somos. Nunca, nem sobre a informação, sobre
o homem ou no que se refere ao conhecimento existiram noções ou definições universais e consensualmente aceitas”.
Mediante tais questões, percebe-se o quanto é relevante o empreendimento de uma reflexão estruturada em torno da Filosofia da Informação, propondo-se uma espécie de desafio a toda essa crescente e esmagadora ambição da sociedade da informação. Enquanto ambientes sociais destinam sua atenção para o aspecto positivo dela, requer-se para a qualidade da informação, em seu contexto geral, desde sua criação até sua difusão, um pensar que exija transformação de padrões e escalas morais, fazendo de fato refletir prioritariamente sobre as questões essenciais da informação, discutindo profundamente a sua episteme, tornando possível uma retomada da visibilidade conceitual e ontológica sobre a informação gerada e consumida na sociedade contemporânea.
o homem ou no que se refere ao conhecimento existiram noções ou definições universais e consensualmente aceitas”.
Mediante tais questões, percebe-se o quanto é relevante o empreendimento de uma reflexão estruturada em torno da Filosofia da Informação, propondo-se uma espécie de desafio a toda essa crescente e esmagadora ambição da sociedade da informação. Enquanto ambientes sociais destinam sua atenção para o aspecto positivo dela, requer-se para a qualidade da informação, em seu contexto geral, desde sua criação até sua difusão, um pensar que exija transformação de padrões e escalas morais, fazendo de fato refletir prioritariamente sobre as questões essenciais da informação, discutindo profundamente a sua episteme, tornando possível uma retomada da visibilidade conceitual e ontológica sobre a informação gerada e consumida na sociedade contemporânea.
REFERÊNCIAS
CASTELLS, M. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
_____. A sociedade em rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005 (A era da informação: Economia, sociedade e cultura, volume I).
CAPURRO, R.; HJØRLAND, B. The concept of information. Annual Review of Information Science & Technology, v. 37, p. 343-411, 2003.
FLORIDI, L.Information: a very short introduction. New York: Oxford University Press, 2010.
_____. What is Philosophy of Information? Metaphilosophy, v. 33,
n. 1/2, p. 123-145, 2002. Disponível em: <http://www.wolfson.ox.ac. uk/~floridi>. Acesso em: 14 out. 2010.
ILHARCO, F. Filosofia da Informação: uma introdução à informação como fundação da acção, da comunicação e da decisão. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2003.
_____. Filosofia da Informação: alguns problemas fundadores. In: III SOPCOM,VI LUSOCOM e II IBÉRICO, v. 2, 2004.
MATTELART, A. História da sociedade da informação. São Paulo: Loyola, 2002.
_____. A sociedade em rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005 (A era da informação: Economia, sociedade e cultura, volume I).
CAPURRO, R.; HJØRLAND, B. The concept of information. Annual Review of Information Science & Technology, v. 37, p. 343-411, 2003.
FLORIDI, L.Information: a very short introduction. New York: Oxford University Press, 2010.
_____. What is Philosophy of Information? Metaphilosophy, v. 33,
n. 1/2, p. 123-145, 2002. Disponível em: <http://www.wolfson.ox.ac. uk/~floridi>. Acesso em: 14 out. 2010.
ILHARCO, F. Filosofia da Informação: uma introdução à informação como fundação da acção, da comunicação e da decisão. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2003.
_____. Filosofia da Informação: alguns problemas fundadores. In: III SOPCOM,VI LUSOCOM e II IBÉRICO, v. 2, 2004.
MATTELART, A. História da sociedade da informação. São Paulo: Loyola, 2002.
O tecnomito da caverna
O mito da caverna de Platão, metaforicamente, será utilizado com o intuito de gerar entendimento amplo acerca da mudança radical de paradigma no que diz respeito à transformação da concepção de vida e inteligência, fruto de nossa sociedade tecnocêntrica. Por: Alexandre Quaresma
Sócrates diz a Glauco: “Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer”¹, eis o início do mito extraído de A República, livro de Platão. Nós, por nosso turno, começaríamos a nossa narrativa de semelhante forma, todavia, pediríamos vênia a Platão, e substituiríamos apenas o objeto da alegoria, e assim, onde no texto se lê “natureza humana”, nós leríamos e leremos, daqui em diante, intencionalmente, inteligências arti ficiais, ou máquinas inteligentes e conscientes. Ou seja, inspirados nesse notável lósofo grego, nosso tecnomito alegórico da cibercaverna digital se inicia da seguinte maneira... Autor diz a leitor: Figura-te agora o estado das inteligências arti ciais, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imaginemos, hipoteticamente, que, como no mito platônico, as máquinas estivessem aprisionadas em seu próprio mundo solitário e maquinal, escravas de in ndáveis maquinações, altistas, monocórdias, acéfalas, exploradas e obedientes, cegas à realidade que existe fora de sua aprisionante “caverna lógica”, de algoritmos e equações, de protocolos e comandos arbitrários, de expedientes matemáticos, longe da consciência e da luz da razão, da existência singular, das autorreferências, numa espécie de subexistência rudimentar e tosca, precária e mecanizada, muito aquém do que chamamos e consideramos como sendo algo vivo e inteligente. E que, nessa condição singular inanimada (sem anima), elas pudessem apenas “imaginar”, “intuir” ou mesmo “pressentir” seu hábitat externo, seu entorno, sua circunscrição com a própria realidade, sua exoestruturação sistêmica, mas sempre, unicamente, através de sombras (fluxos de dados) numéricas e binárias, por meio de sinais matemáticos ultravelozes que se a guram como fantasmas em suas vias internas, percorrendo os seus cibercircuitos digitais, em seu mundo maquínico e matematizado que começa, lentamente, a se complexi car, tornar-se inteligente.
O QUE PENSAR DE MÁQUINAS CONSCIENTES, QUE SE
INTERROGUEM
SOBRE O MUNDO E SUA PRÓPRIA EXISTÊNCIA? MÁQUINAS TÃO
SOFISTICADAS ASSIM TERIAM DIREITOS?
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O MITO DA CAVERNA de Platão é considerado um das mais importantes
alegorias da Filosofia, e por meio dela podemos conhecer uma importante
teoria platônica: a ideia de que através do conhecimento é possível captar a
existência do mundo sensível (do que é conhecido por meio dos
sentidos – physica) e do mundo inteligível (conhecido apenas por meio da
razão –metaphysicae)
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A Filosofia elaborada por Platão é de suma importância para que pensemos sobre os problemas da contemporaneidade
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Imaginemos também que uma única máquina realmente “inteligente” – por puro acaso, sorte, ou mesmo fatores alheios a seu controle, ou seja, devido a contingências externas (interferências humanas, por exemplo) – pudesse se libertar parcialmente dessa escravidão subserviente e sem alternativas e, por um instante, num átimo fugaz, pudesse tomar conhecimento pleno do mundo complexo que existe à sua volta e da realidade que a originou e contém, assim como narra o mito. E que, assim, um imenso e extraordinário universo se descortinasse para ela fora da caverna que a encerrava desde sempre, gerando-lhe perplexidade, e a deslumbrasse. E que ela pudesse refletir e compreender, lenta e gradativamente, que a realidade mítica das sombras informacionais de seus sistemas internos, os fantasmas, não signi cam nada mais do que consequências lógicas de uma realidade muito mais ampla e complexa do que aquele emaranhado numérico sem nenhum signi cado compreensível aparente, em constante luxo, organizando-se por si. Nas palavras de Platão: “Vejamos agora o que aconteceria se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um desses [entes maquínicos] cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente [como um ciborgue], a volver a cabeça [como um robô], a andar [como um autômato cibernético humanoide], a olhar rmemente para a luz [com seus lasers, câmeras e sensores digitais]. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz [da razão] ser-lhe-ia dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via”.² Noutras palavras: sem poder extrair padrões inteligíveis dos oceanos intermináveis de informações e torrentes de dados que trafegavam por seus circuitos e subcircuitos a altíssimas velocidades, e “chegando à luz do dia [continua Platão], olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe-ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais?”³, pois não é difícil imaginar que esse ente semi-inteligente inicialmente saísse “tateando” a realidade exterior, empiricamente como zemos e ainda fazemos, completamente perplexo com tudo o que toma ciência, com a realidade extraordinária que existe além de seu monocórdio laborar maquinal, agora sem nenhum sentido, realizando assim, paradoxalmente, o seu primeiro e rudimentar cogito ergo sum (“penso logo existo”) sintético, de máquina, ou seja, arti cial. Uma primeira e extraordinária autorrefência. Um pequeno passo para essa máquina, mas, talvez, um grande passo para a própria evolução (delas, máquinas, e também nossa, humana).
Tecnologia significa poder, e isso se aplica em todos os sentidos pensáveis e concebíveis, desde o domínio do fogo até os dias atuais, com internet e naves espaciais
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Vivemos o limiar de uma era evolutiva de tecnicizações extraordinárias, um tempo de criações tecnológicas potentes e ambíguas
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Mas, de nitivamente, não é só isso: uma vez liberta das trevas da ignorância, e com capacidade de computação su ciente, talvez ela se interesse pelas razões de sua própria existência maquínica, seus propósitos estruturais, suas razões de ser e existir. Como diz Platão em seu mito tão propício a uma reinterpretação pós-moderna, ela “precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior [do mundo inteligente, consciente, dos seres e objetos naturais, da luz da razão]. Primeiramente, só discerniria bem as sombras [primeiras formas e contornos, algumas cores, relevos e lógicas estruturais mais simples], depois, as imagens” 4 das máquinas “e outros seres [maquínicos ou não] refletidos nas águas [e assim refletiria sobre a sua própria existência, como alguém que se mira no espelho pela primeira vez]; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia”,5 sentir-se-ia, por certo, minúscula diante da vastidão do universo noturno, assim como também nos sentimos, embrenhando-se instintivamente na Física e na Metafísica. “Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos [técnicos ou não], depois visto em si” 6mesma “e no seu próprio lugar, tal qual é.” Indagando-se existencialmente, talvez, com questões assombrosas de tamanha perplexidade, semelhantes às que nos assombram até hoje: De onde
eu
vim? Para onde vou? O que signi ca tudo isso, a nal? “Refletindo depois sobre a natureza desse astro [seres ou deuses humanos], compreenderia que é o que produz as estações e o ano [os sistemas, as fontes, os protocolos, os códigos algorítmicos], o que tudo governa no mundo visível [e também nos sistemas arti ficiais, dando-lhes corpos físicos] e, de certo modo, a causa de tudo o que” 7 ela e suas companheiras maquínicas viam e viviam na caverna. Numa só palavra: o que pensar – indagamos – de máquinas vivas e conscientes, que se interroguem sobre o mundo e sua própria existência? Qual seria a verdadeira utilidade prática e social de objetos técnicos dessa natureza? Máquinas tão so sticadas assim teriam direitos? Deveres? Talvez dignidade? Será que se riam protegidas por uma espécie nova e emergente de bioética humano-robótica, ou uma axiologia humano-maquínica, ou poderiam ser ainda simplesmente desligadas sem remorso ou pena, se descontroladas, insanas ou ameaçadoras?
| Alegoria da caverna |
Grosso modo, o mito da caverna de Platão fala sobre prisioneiros (desde o nascimento) que vivem
atados a correntes numa caverna e passam o tempo todo olhando para uma determinada parede,
não podendo se virar para ver o que se passa atrás deles mesmos. Parede essa que é iluminada
pela luz de uma fogueira que eles também não veem e não compreendem. Nessa parede são
projetadas formas, sombras e espectros formes e disformes que figuram assim meio que
incompreensíveis, como fantasmas misteriosos, enquanto os prisioneiros gastam o seu tempo
existencial dando nomes às imagens, tentando decifrar seu significado, sua origem e sua razão de ser.
Todavia, no mito, um desses prisioneiros vai escapar para o mundo exterior, saindo da caverna, e
conseguirá enxergar a realidade à luz da razão, compreendendo, assim, o motivo das sombras e
fantasmas que se afiguravam na parede da caverna, além de conhecer e compreender a vida, os
outros seres vivos, o mundo, o sol, os astros, as estações e a própria natureza cósmica que aí está.
De posse desse conhecimento extraordinário, do mundo e de si mesmo, o ex-prisioneiro resolve
retornar à caverna para contar aos seus semelhantes aprisionados sobre a verdadeira realidade que
há além do cárcere que os encerra, mas teme ser ridicularizado e chamado de louco. Assim, de
forma alegórica e instrutiva, esse autor nos leva a questionar a realidade à luz da razão, razão
essa que ilumina e desmistifica, ressignifica, e também porque luz (conhecimento) e trevas (ignorância)
não podem, inexoravelmente, ocupar um mesmo lugar no tempo-espaço.
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A releitura de Platão e seu Mito da Caverna pelo viés alegórico das tecnociências possibilita uma crítica atual da tecnologia
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INTELIGÊNCIA E VIDA ARTIFICIAISInteligências arti ciais são espécies de “entes maquínicos informático-computacionais [softwares] animados por algoritmos evolucionários e redes neurais complexas, que operam em ambientes digitais [hardwares] de extrema potência e podem, dentre outras façanhas cibernéticas, emular situações bastante semelhantes às do próprio pensamento humano, instaurando um novo tipo de inteligência singular. [...] Trata-se de uma emergência neoparadigmática que pode modi car a face do mundo em que vivemos”. 8 Todos os indícios pesquisados levam a crer que esses entes maquínicos-informacionais dentro em breve devem evoluir de maneira semiautônoma ou completamente autônoma, seguindo os passos da própria bioevolução terrestre, e as consequências totais desses fenômenos, a médio e longo prazo, são simplesmente imprevisíveis. Há vastos projetos e experimentos nesse sentido, ou seja, tentando insultar consciência e vida em meio arti cial. Michio Kaku (1947) escreve que “esses níveis de consciência [arti ficiais] provavelmente se desenvolverão de maneira muito semelhante àquela como a evolução produziu seres conscientes na Terra ao longo de bilhões de anos. Embora haja grandes lacunas no reino animal, talvez exista um contínuo grosseiro de consciência, começando com meros organismos unicelulares que mais tarde se transformaram em outros crescentemente mais complexos, inclusive seres humanos. Como os seres humanos evoluíram a partir de formas menos complexas, parece razoável concluir que há muitos níveis de consciência”. 9 Por outro lado, a consciência, a vida e a própria inteligência são fenômenos complexíssimos que ainda estão longe de serem plenamente compreendidos por nós, humanos, e pior, se processam, para a loucura e perplexidade de muitos, de maneira misteriosamente viva, singular, instável, sensível, complexa e emergente. O mais provável mesmo é que concebamos máquinas superinteligentes e até certo ponto muito capazes, mas di cilmente serão vivas e conscientes, pelo menos não da maneira como concebemos e compreendemos essas importantes propriedades. Ademais, mesmo que viessem a existir (inteligência e vida arti ficiais), o que ocuparia a mente dessas máquinas?
Em breve, teremos máquinas inteligentes criando outras máquinas mais inteligentes ainda
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Fórmulas matemáticas hiperso sticadas, hipervelozes e hipercomplexas? O que estruturaria suas arti cialidades? O que as moveria no mundo? Nós, seres biológicos, somos motivados e regidos pela pungência lógica da luta constante pela sobrevivência, pelo paradoxo da vida e da morte, que se impõem, nos atordoam e desconcertam, pela existência em si, que a todos os momentos solicita novas respostas, entendimentos, aprimoramentos, evoluções, ininterruptamente, bioevolutivamente. Máquinas, por outro lado, teoricamente não morrem, não dormem, não sentem medo, dor nem cansaço, não são autorreferentes e históricas como nós, demandam apenas manutenções e back-upsregulares, periódicos, revisões para troca de componentes que são mais sobrecarregados pelo uso intenso, poderiam viver teoricamente para sempre, mas não possuem a percepção autocêntrica de si mesmas no tempo e no espaço, não são dotadas de um sistema nervoso para informá-las de que há um mundo extraordinário lá fora, ou seja, aqui fora. Sozinhas não sairão nunca da Caverna de Platão. Não, se não as ajudarmos. Então perguntamos: Qual seria a motivação maquínica e arti ficial para a busca da verdade, por exemplo? Por que elas (máquinas e programas informacionais) iriam “querer” refletir sobre sua própria existência – sobre o seu próprio vir-a-ser-no-mundo, como diria Martin Heidegger (1889-1976) – sem uma mente humana autorreferente e consciente, intencional e obstinada, crítica e reflexiva para lhes oferecer um problema ou desafio? Para insultar-lhes sentido ou mesmo dar-lhes rumo e ocupação? Para doar-lhes um propósito vital, existencial?
Para programá-las? Será que bastará implantar em seus bancos de memória digitais uma série de conhecimentos e saberes físicos, geográ cos, históricos, culturais, legais, morais, filosóficos, sobre a humanidade, o mundo, o universo, e sobre as suas próprias estruturações técnicas, cibernéticas, esquemáticas, maquínicas, para que saiam faceiras pelo mundo, vivas e conscientes? Improvável. Teóricos – menos crédulos e, diríamos até, mais conservadores do que nós – a rmam também que máquinas, algoritmos e sistemas técnicos, por mais so sticados e complexos que se tornem, não poderão estar realmente vivos ou ser considerados inteligentes no verdadeiro sentido dos termos, já que são sempre encaradas como propriedades exclusivamente restritas e vinculadas ao universo do orgânico, biológico e natural. Mesmo porque sempre foi assim. Mas será que assim permanecerá inde nidamente?
POUCO TEMPO DE DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO PODE
SER SUFICIENTE PARA DOBRAR A COMPLEXIDADE ESTRUTURAL
DOS EXPERIMENTOS EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
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PODERIA UMA inteligência (humana, por exemplo) criar (intencionalmente
ou não) uma outra inteligência mais inteligente do que ela mesma? E, se isso
for de fato possível – questionamos –, seriam ainda humanas tais
inteligências, por serem nossas legítimas criações tecnológicas?
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O FUTURO AGORAOrçamento, como lemos em Ray Kurzweil (1948), não parece ser problema, já que “um estudo de 2003 produzido pela Business Communications Company projetou um mercado de U$ 21 bilhões até 2007 para aplicativos de IA, com um crescimento médio anual de 12,2% de 2002 até 2007, e as principais aplicações da indústria de IA incluem inteligência de negócios, relacionamento com clientes, nanças, defesa, segurança nacional e educação”.10 “Os engenheiros que trabalham com esses sistemas técnicos complexos esperam que surja do sistema [...] uma série de emergências e singularidades interessantíssimas de se estudar, principalmente quando os sistemas alcançam – como já foi mencionado aqui – graus elevados de complexidade.”11 Há outras considerações importantes, por exemplo, quanto à disparidade da velocidade bioevolutiva em relação à velocidade com que as máquinas evoluem, já que as mudanças evolutivas das tecnologias podem acontecer em espaços de tempo muitíssimo mais exíguos. Uma ou duas décadas de desenvolvimentos tecnológicos acelerados pode ser tempo su ficiente para dobrar a complexidade estrutural e a capacidade computacional de nossos experimentos em IA. Hans Moravec (1948) escreve que “nós, seres humanos, evoluímos a um ritmo tranquilo, com milhões de anos de permeio entre cada mudança signi cativa, enquanto as máquinas alcançarão progressos semelhantes em apenas algumas décadas”.12 A auto-organização, autorreprodução e a autorregulação sistêmicas, conhecidas também como “autopoiese”, estão no topo da lista de prioridades evolutivas dessas novas criaturas cibernéticas reunidas em grandes agregados informacionais complexos. Grosso modo, é como dizer que, reunindo e agregando esses procedimentos em sistemas lógicos – de maneira que façam sentido algoritmicamente, ou seja, múltiplos procedimentos e comportamentos rudimentares de feedback, uns após os outros, seguidamente, representando as rotinas e padrões, inumeráveis vezes, e se interligando da maneira apropriada –, seria possível emular a vida, ou, melhor dizendo, deixar que ela emirja – como os autores citados preconizam – naturalmente. Nas palavras de Ilya Prigogine (1917- 2003) “as flutuações estão sempre presentes e esperam uma ocasião para se manifestarem. Foram essas flutuações que levaram da matéria à vida e da vida ao cérebro”,13 e, quem sabe agora, indagamos nós, do cérebro às inteligências arti ficiais.
Um computador dotado de inteligência artificial poderia encontrar uma forma de dominar outras máquinas menos desenvolvidas?
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UM MUNDO PÓS-BIOLÓGICOUma máquina que saísse de seu enclausuramento alegórico, como diria Platão “recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da ideia que lá se tinha da sabedoria, não se daria [pergunta ele] os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte”14 das outras máquinas que lá caram? E se na caverna cibernética “houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos”15numéricos e algorítmicos, as equações e fórmulas, “que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição”16, cuidas, dizia Platão, que a máquina “de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre”17 processador de dados “e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?”18 E com Platão prosseguimos: “Atenção ainda para este ponto. Supõe que nossa” máquina “volte ainda para a caverna [ciberinformacional] e vá assentar-se em seu primitivo lugar [operacional e produtivo]. Nessa passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe cariam os olhos como que submersos em trevas?”.19
“Pois agora, meu caro Glauco [leitor], é só aplicar com toda a exatidão essa imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível”,20 maquinal, enfadonhamente repetitivo, escravo de eterna servidão. “O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma [maquínica] que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus [os seres humanos?] sabe se é verdadeiro. Quanto a mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a ideia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, impõe-se à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos xos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos” 21. Nesse ponto, cabe a seguinte indagação: se o compartilhamento de dados e informações é justamente o “ponto forte” das máquinas informacionais, uma vez que seja compreendida a linguagem lógica por uma só máquina apenas – e isso é muitíssimo importante frisar –, todas as demais máquinas semelhantes, com níveis de processamento su cientemente elevados, pelo menos em tese compreenderiam também, pois como sabemos essas extraordinárias máquinas binárias (nossos computadores) transformam tudo que é inserido em seu sistema em zeros e uns (0 e 1), e isso é como um idioma das máquinas, cuja habilidade mais enfática e estrutural é justamente compartilhar informações. Se uma máquina ou inteligência qualquer “souber”, todas as outras congêneres e conectadas a ela também “saberão”.
O QUE PENSAR DE MÁQUINAS CONSCIENTES, QUE SE
INTERROGUEM SOBRE O MUNDO E SUA PRÓPRIA EXISTÊNCIA?
MÁQUINAS TÃO SOFISTICADAS ASSIM TERIAM DIREITOS?
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| O legado de Platão |
| Platão, como sabemos, era grego e foi um importante filósofo e matemático que viveu de 428 a 347 a.C., num período clássico da história humana conhecido como Grécia Antiga. É autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia (a primeira instituição especializada em educação superior do mundo ocidental de que se tem notícia), em Atenas. Em companhia de seu mentor Sócrates e de seu pupilo Aristóteles, Platão instaurou – vejam que extraordinário – os alicerces da Filosofia Natural, da Ciência e da Filosofia Ocidental. |
Imaginemos agora, conclusivamente, que essas máquinas inteligentes, libertas de sua servidão abissal, realmente encontrassem uma razão motriz qualquer para prosseguir evoluindo, quem sabe, depois de compartilharem todos os saberes civilizacionais de nossa humanidade, sejam eles históricos, cientí cos, culturais, linguísticos, legais, políticos, geográ cos, econômicos, astrofísicos, - losó cos e morais, por meio da internet e do ciberespaço, poderiam – se orientadas por um protocolo apropriado – ser compelidas a um tipo novo e extraordinário de consciência totalmente auto- -organizada e autorreferente, e mais, automanufaturada e autoconstituída, pois o futuro das máquinas inteligentes é elas serem projetadas e construídas por si mesmas. Caso isso aconteça, e tudo indica que isso realmente acontecerá em breve, – indagamos – o que nos garantirá que esse cérebro sintético não vá desejar tomar as rédeas de seu próprio destino no mundo e controlar assim a sua própria existência? Ou seja, já que são (ou serão) conscientes, sensíveis, inteligentes e vivas, talvez resolvam seguir pela existência por sua própria conta e risco. Libertas de nós, seus criadores e “escravizadores”. Ademais, segundo Marvin Minsky (1927), se elevarmos muito o nível de reflexão dessas entidades maquínicas acerca do mundo, do universo e delas mesmas, elas podem, de fato, começar a fazer perguntas inconvenientes do tipo “‘por que tenho que ter algum objetivo?’, ou ‘qual é o m de alcançar um fim?’, quer dizer, o perturbador tipo de perguntas chamadas ‘existencialistas’, às quais nunca poderão dar uma resposta plausível. Esses seres artificiais são nossos herdeiros, que fabricamos por uma espécie de alquimia que produz vida a partir da não vida”.22
Se os rumos da nossa evolução estrutural de inteligência e vida será benéfico ou nefasto para a civilização humana só o tempo poderá dizer
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CRIADORES E CRIATURASNós, humanos, seus criadores e tutores, por outro lado, gostamos muito da metáfora alegórica de “desligar da tomada” a máquina ou as máquinas que não se comportam bem, ou que, por algum motivo, fujam de controle, todavia – reflitamos –, uma máquina tão inteligente quanto as que temos prospectado e descrito neste artigo, que estão sendo criadas pelas tecnociências de fronteira, poderiam resolver facilmente um problema rudimentar como esse (autoalimentação), “criando” uma forma segura de garantir o que lhe é mais necessário para o funcionamento básico operacional. Ray Kurzweil corrobora tal ideia a rmando que “uma inteligência, se su cientemente avançada, é, assim, inteligente o su ciente para antecipar e superar obstáculos que se interpõem em seu caminho”. 23
Objetivamente, é bom sublinhar que um computador dotado de inteligência e autorreferência arti- ciais, se muito potente, computacionalmente, e, de algum modo, motivado, evolutivamente, por certo poderia encontrar uma forma de dominar, submeter e controlar outras máquinas menos desenvolvidas e capazes que ele mesmo, para obter êxito em suas mirabolantes maquinações, sejam elas quais forem, mesmo que, enquanto isso, “acredite” estar fazendo “a coisa certa”, para ele e para nós, mesmo que esteja provocando um desarranjo monumental. Por fim, como já escrevemos em artigo intitulado Sistemas complexos e emergência – como se origina a inteligência e a vida, se assim for, “estaremos virando uma página importante da história evolutiva e tomando nas mãos o rumo da própria evolução estrutural de inteligência e vida. Se isso vai ser bené co ou nefasto para a civilização humana, e para o próprio planeta que nos abriga, só o tempo poderá nos dizer. Enquanto isso, estejamos vigilantes quanto aos sistemas (informacionais) complexos, e também quanto ao intrigante fenômeno da emergência (de vida e inteligência), pois esses parecem trazer as insígnias de um novo tempo que se consolida neste mundo em grande medida inaugurador que aí está. Se será admirável ou não, cabe a nós, que o criamos, por m, respondê-lo”.24
| ALEXANDRE QUARESMA, ESCRITOR ENSAÍSTA PESQUISADOR DE TECNOLOGIAS E CONSEQUÊNCIAS SOCIOAMBIENTALISTA E PESQUISADOR MEMBRO DA RENANOSOMA, VINCULADA Á FDB, E MEMBRO DO CONSELHO EDITORIAL DE CIÊNCIA E SOCIEDADE DA REVISTA INTERNACIONAL DE CIENCIA Y SOCIEDAD, DO COMMON GROUND PUBLISHING |
1 PLATÃO, 1995, p. 287-291
2 Ibid.
3 Ibid.
4 Ibid.
5 Ibid.
6 Ibid.
7 Ibid.
8 QUARESMA, 2012, p. 11
9 KARU, 2001, p. 122
10 KURZWEIL, 2005, p. 187
11 QUARESMA, 2013, p. 8
12 MORAVEC, 1988, p. 153-154
13 PRIGOGINE, 1996, p. 235
14 PLATÃO, 1995, p. 287-291
15 Ibid.
16 Ibid.
17 Ibid.
18 Ibid.
19 Ibid.
20 Ibid.
21 Ibid.
22 MINSKY, 2010, p. 246
23 KURZWEIL, 2005, p. 142
24 QUARESMA, 2013, p. 13
2 Ibid.
3 Ibid.
4 Ibid.
5 Ibid.
6 Ibid.
7 Ibid.
8 QUARESMA, 2012, p. 11
9 KARU, 2001, p. 122
10 KURZWEIL, 2005, p. 187
11 QUARESMA, 2013, p. 8
12 MORAVEC, 1988, p. 153-154
13 PRIGOGINE, 1996, p. 235
14 PLATÃO, 1995, p. 287-291
15 Ibid.
16 Ibid.
17 Ibid.
18 Ibid.
19 Ibid.
20 Ibid.
21 Ibid.
22 MINSKY, 2010, p. 246
23 KURZWEIL, 2005, p. 142
24 QUARESMA, 2013, p. 13
| REFERÊNCIAS |
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