Filosofia para o dia a dia: Sêneca e a Raiva


LUCIUS ANNAEUS SENECA (4 a.C. - 65 d.C.) - Filósofo da Ética. Teve importante papel na vida pública, política do Império Romano. Foi conselheiro de Nero, orador, advogado e primeiro representante do estoicismo romano, escola filosófica voltada às questões morais. Suas ideias estavam centradas no desapego aos bens materiais, na busca pela tranquilidade da alma, na aceitação serena do destino, na harmonia com a natureza e na brevidade da vida humana.

Muito antes de saber qualquer coisa a respeito eu me sentia atraído pela ideia da filosofia. Eu a via como uma matéria prática, capaz de fazer diferença no mundo e de nos dizer muito sobre percalços cotidianos como rejeições amorosas, demissões ou a falta de amigos.

A filosofia traz uma promessa que pode parecer ingênua, mas na verdade é muito profunda e de mostrar um caminho para aprender a ser feliz.
A vida moderna é cheia de frustrações e a maiorias das pessoas não parece capaz de reagir filosoficamente a elas, nós perdemos as estribeiras. Portanto a ira tem sido uma das emoções bastante comum em nossas vidas. Assim, é interessante descobrir que, na antiguidade ela era vista com um problema maior. Há um filósofo da antiguidade que se dedicou ao estudo da ira e queria acalmar as pessoas. Ele nasceu em Córdoba, na Espanha, no ano 1 da Era Cristã, e chamava-se Sêneca. Sêneca foi o filósofo mais conhecido e popular de sua época. Ele escreveu mais de 20 livros com conselhos práticos sobre rodos os aspectos da vida. Ele foi para Roma ainda menino e passou a maior parte da vida influenciando a política local como membro do senado. Mas nem por isso teve uma vida livre de frustrações. Ele era um homem melancólico por natureza, que havia sofrido de tuberculose na juventude e tinha surtos depressivos, quase suicidas. Ele viveu em uma época muito perigosa. Sua carreira política foi construída durante uma série de governos de líderes tirânicos e imprevisível. Ele vivia, literalmente sem saber o dia de amanhã, pisando sobre terreno instável.
No ano 49 d.C., ele teve que assumir contra a vontade o cargo mais ingrato: O de tutor de um menino de 12 anos, LUCIUS DOMITIUS AHENOBARBUS, o futuro imperador Nero. Logo ficou claro que Nero era um psicopata, homicida. Sabendo que corria perigo, Sêneca tentou se afastar da corte por duas vezes, entregou ao imperador sua carta de demissão. Por duas vezes, ela foi recusada com um abraço, e o argumento de que Nero preferiria morrer a fazer mal a seu tutor. Nada do que Sêneca percebia estimulava-o a crer nessas palavras.

Ao conhecermos o palácio subterrâneo de Nero, começamos a entender porque Sêneca se preocupava tanto com a ira. Nero era um homem com poderes absolutos. As pessoas eram trazidas para as câmeras eram executadas em massa. Ele atirava romanos aos leões, decapitava-os, lançava-os aos crocodilos e desmembrava-os vivos. Virgens eram capturadas nas ruas e trazidas para o palácio para serem mortas. Gladiadores que não se saiam bem eram lançados aos lobos. Tudo isso acontecia nessas câmaras subterrâneas.
Vendo resultados tão tremendos da ira, Sêneca ficou desesperado para abrandá-la. Um imperador romano tomado pela ira não era só uma visão desagradável, mas um fenômeno potencialmente catastrófico.
Por experiência própria Sêneca considera a ira um problema grave. Ele chegou a dedicar um livro inteiro, da Ira, a esse tema. “A mais terrível e furiosa das emoções”, ele escreveu. Mas recusava-se a vê-la como uma explosão irracional e incontrolável.
Que tipo de coisa deixa você irritado?
Eu fico bastante irritada no trânsito.

Para Sêneca, a ira era um problema filosófico que podia ser tratado pela argumentação filosófica. A ira surgia de certas ideias racionalizadas sobre o mundo. E o problema delas era ser otimista demais. Na visão de Sêneca as pessoas ficam com raiva porque criam muitas expectativas.
Num ataque de ira, sentimo-nos surpresos e injustiçados. O que Sêneca diria é que, por exemplo, que as confusões e barbeiragens no trânsito não são injustas, nem surpreendentes, mas um fato previsível da vida. Quem se irrita com elas tem expectativas erradas em relação ao mundo. Assim, seu primeiro conselho era que fôssemos mais pessimistas, para ajustar nossa visão de mundo aos reveses da vida. Quem se irrita com elas tem expectativas erradas em relação ao mundo. Assim, seu primeiro conselho era que fôssemos mais pessimistas, para ajustar nossa visão de mundo aos reveses da vida. E ele nos pede para ter mais uma coisa em mente: se aceitarmos que nada pode ser feito quanto às nossas frustrações, não vamos nos descontrolar tanto quanto elas acontecerem.

Sêneca diz um dos motivos para nossa raiva é imaginarmos que as coisas sempre têm de ser como queremos, que somos capazes de moldar o mundo segundo nossos desejos, mas não são. Há muitas coisas que temos de aceitar. Nem sempre temos liberdade para mudá-las. Para tentar nos fazer compreender isso, para criar uma imagem clara, Sêneca fez uma comparação inusitada: Ele disse que nós somos, basicamente, como cães amarrados a uma carroça em movimento. A coleira é longa o bastante para nos dar alguma liberdade, mas não para permitir que cada um vá para onde quiser. O cão logo se dá conta que para ser feliz, ele precisa, algumas vezes, se contentar em seguir a carroça. È bem melhor segui-la para onde você não quer ir do que se debater contra algo que não podemos mudar. Porque, além de ir para onde não quer, você vai acabar se estrangulando.
Mas levamos uma vantagem sobre os animais: somos dotados de razão. Essa razão nos dá um triunfo: a capacidade de perceber o que podemos e o que não podemos mudar. Talvez não possamos alterar certos acontecimentos, mas podemos mudar nossa atitude com relação a eles. Era essa capacidade, para Sêneca, que conferia a liberdade que nos distingue como humano.

Mas Sêneca não é útil apenas em nossos momentos de fúria. Sua filosofia nos dá um meio de ficarmos calmos e controlados diante de qualquer adversidade. Quem teve a oportunidade de conhecer Pompéia ou assistir algum filme, poderá ter uma ideia da vida que Sêneca levava. Ele foi um homem rico e podemos cair na armadilha de imaginar que ele e outros patrícios levavam uma vida fácil e tranquila. Mas basta ler Sêneca para descobrir que essa imagem está errada. Em meio ao luxo, a aristocracia romana fervilhava de fúria.

Sêneca fez uma análise interessante da ira, observando o mundo a sua volta, ele flanava pela alta sociedade de Roma imperial. Muitos de seus amigos tinham enormes casa de campo, com escravos para preparar a comida, banquetes que entravam noite adentro. Ele fez uma constatação surpreendente: a riqueza torna as pessoas mais cheias de raiva, e não mais calmas. “A prosperidade alimenta o destempero”.

Sêneca conheceu um certo Vedius Pollio, alto funcionário do governo, que certa vez deu uma festa. Um escravo encarregado de uma bandeja com copos teve o azar de tropeçar e derrubar a bandeja. Vidius Pollio ficou tão furioso que mandou atirar o escravo num tanque cheio de lampreias, para que fosse devorado vivo. O que aconteceu na análise de Sêneca foi que Vidius Pollio vivia num mundo onde copos não se quebravam.
O filósofo concluiu que o problema dos ricos como Vedius é que eles tinham expectativas absurdas. O mesmo pode ser dito dos ricos atuais. Basta observar o check-in da 1ª classe de uma companhia aérea e ver como as pessoas falam mais alto, do que na fila de classe econômica. Quanto mais rico você for, mais expectativas tende a ter. Quando elas são frustradas, a fúria emerge. Os ricos acreditam que o dinheiro vai protegê-los de reveses e frustrações, e essa é a expectativa mais absurda de todos.
A filosofia de Sêneca não é importante só para os irritados. Ele achava que todos nós reagimos mal às frustrações e só teríamos a ganhar se reduzíssemos nossas expectativas. Ele achava que o mais estressante é o que nos pega de surpresa. Que nos irritamos mais com os problemas que surgem quando menos esperamos. Se você admitir que as coisas possam dar erradas quando as coisas acontecerem, você já está preparada. Ele dizia que a melhor forma de combater a raiva é estar preparado e aconselha-nos a fazer isso.
Costumamos confrontar as pessoas dizendo que “tudo vai ficar bem”. Para Sêneca, essas palavras de suposto apoio podem ser cruéis, pois deixam as pessoas desesperadas para situações adversas. Ele recomenda a estratégia oposta: uma reflexão tranquila, mas diário sobre tudo o que pode dar errado. A ideia é estruturar o pensamento que às vezes nos ocorrem, refletindo sobre elas toda manhã.

Sêneca não proíbe as pessoas de esperar que as coisas funcionassem bem, ele só gostaria de vê-la preparada psicologicamente para o contrário. Ele achava que, muitas vezes superestimamos nossa capacidade de mudar os acontecimentos, de rever situações frustrantes.
Foi para nos relembrar constantemente de quantas coisas estão fora do nosso controle que ele evocou a ajuda de uma deusa. O nome dela era Fortuna e estava representada em muitas moedas romanas. Havia também estátuas suas pela Itália. Ela apreciava dois objetos: em uma das mãos, uma cornucópia, como símbolo de seu poder de conceder favores. Nessa cornucópia, havia muitas das boas coisas da vida. Mas fortuna tinha também um objeto mais sinistro, um leme como símbolo de seu poder de desviar nossos destinos. Num rompante de crueldade, como lhe era frequente, bastava um toque no leme para ela destruir nossas vidas, levar nossos empregos e nos causar imensa dor de cabeça.
Fortuna simboliza as coisas que devemos aceitar, as boas e as ruins. Quando algo sai errado, não devemos gritar e praguejar, mas lembra que muitas frustrações são caprichos cruéis de uma deusa cujos atos não podemos mudar.
A maior parte dos habitantes de Pompéia, uma cidadezinha aos pés do Vesúvio, acreditava ter controle sobre o próprio destino. Mas, talvez, o lembrete mais duro dos limites de nosso controle sejam as forças da natureza. Ao meio-dia de 13 de agosto de 79 d.C, eles iriam descobrir que Fortuna tinha planos para a cidade. Em questão de horas, Pompéia foi soterrada por cinzas vulcânicas, uma demonstração terrível e clara da tese de Sêneca: nunca estamos a salvo da deusa Fortuna. Mesmo quando tudo parece tranquilo, pode sobrevir o desastre. A melhor maneira de nos protegermos é estarmos preparados psicologicamente.

Tendemos a achar que o legado mais importante dos filósofos são os livros que escreveram onde todo o talento e sabedoria estão concentrados. Mas os antigos agarravam-se à crença mais abrangente de que também devemos buscar inspiração, nos momentos de necessidade na forma com os filósofos levam suas vidas e como morriam.
Foi no instante de sua morte que Sêneca se mostrou mais inspirador. A cena foi reproduzida infinitamente desde então. Em abril de 65 d.C. foi descoberta uma conspiração contra Nero na qual Sêneca acabou incriminado, embora provavelmente fosse inocente. Nero enviou um centurião à residência do filósofo, para ordenar que ele se matasse imediatamente. Quando os amigos e familiares souberam da sentença, caíram em prantos. Mas Sêneca não chorou. Foi sua atitude diante da desgraça que ajudou a definir o que ele queria dizer, ao afirmar que devemos ver as coisas filosoficamente. Calmamente, ele pegou uma faca e cortou os próprios pulsos. Sêneca morreu da maneira como nos aconselhava a viver.
“Por que chorar por fatos da vida quanto toda ela é motivo de lágrimas?”
Com sorte, nada de tão terrível irá ocorrer conosco, mas coisas ruins podem acontecer, e a melhor maneira de amenizar os golpes, se eles vierem, é estarmos preparados.
Ira e frustração são essencialmente, reações irracionais e aos reveses, e a única estratégia racional é manter-se calmo diante da constatação de que algumas coisas dão errado. Dessa maneira, estaremos agindo no mais verdadeiro e melhor sentido do termo, filosoficamente.

Filosofia para o dia a dia: Sêneca e a Raiva

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