Immanuel Kant, um divisor de águas

A Filosofia tem pelo menos dois pensadores reconhecidos como "divisores de água": Sócrates e Kant. Enquanto o primeiro mudou o olhar empreendido pelos pensadores anteriores (por isso chamados de pré-socráticos), Kant traçou os limites do conhecimento humano, no período em que a crença na "Razão" propalava a ideia de que o homem tudo podia conhecer
Por: Jaya Hari Das*

Dizem que as crianças, assim que começam a falar, fazem perguntas "filosóficas", do tipo que iniciam sempre com "como" ou "por quE". Assim sendo, não seria descabida a comparação da "infância" com o período do nascimento da Filosofia entre os gregos, uma vez que aqueles antigos pensadores começaram também a indagar sobre o Universo perguntando-se "Como o Cosmos foi formado?" ou "Por que os seres nascem e morrem?", por exemplo. Antes disso, houve todo um período mitológico, no qual narrativas simplórias preenchiam a curiosidade e o imaginário das pessoas, tal qual os vários contos de fada, construídos em um mundo de fantasias, são contados até hoje às crianças, visando simplesmente aplacar seus medos ou adverti-las de certos perigos.
Adolescente 
O uso da categoria adolescente é uma apropriação livre, na medida em que o conceito começou a ser formulado, da forma como entendemos, a partir do final do século 19.


A humanidade pode parecer a mesma para alguns; os filhos podem parecer sempre pequenos para seus pais, mas, na verdade, algo muda inexoravelmente. Com o passar do tempo, todos começam a fazer perguntas diferentes. E isso é um bom sinal de que eles estão crescendo. As perguntas são mais incisivas e as respostas, portanto, precisam ser mais conclusivas. Sócrates, por exemplo, mudou, ainda na Antiga Grécia, o rumo das indagações de seus compatriotas, inaugurando com isso um novo momento na história da filosofia. Mas ele não seria o único, pois, apesar de, durante vários séculos, os homens deverem a ele tudo o que se construiu em termos de conhecimento do próprio homem, o tempo, senhor de todas as transformações, não deixaria tudo tão indelével assim. Bem que Platão e Aristóteles tentaram, e até foram bem-sucedidos por muitos e muitos anos!



Terremoto de Lisboa 
O Terremoto ou Sismo de Lisboa ocorreu no dia 1o de novembro de 1755. O terremoto, seguido de maremotos e incêndios, destruiu a cidade de Lisboa e outras regiões da Península Ibérica. Estima-se que morreram na tragédia mais de 100 mil pessoas.
O obscurantismo da Idade Média cobriu a humanidade sob nuvens tão escuras que os homens mal puderam se dar conta do trabalho lento e silencioso que o tempo andava fazendo em suas mentes juvenis. Como todo a adolescente, o homem medieval estava para eclodir não com espinhas, mas com espadas, que fariam estourar revoltas e revoluções por toda a Europa, em breve. Em breve, também, homens como Francis Bacon, Voltaire e Rousseau surgiriam, trazendo luzes, para afastar de uma vez por todas as trevas medievais. E a Filosofia, que ainda não havia despertado completamente do "sono dogmático" de uma obscura noite de dez longos séculos que lhe fora imposta, vai despertar de vez sob os auspícios de um filósofo que sabia muito bem viver uma vida sob as simples badaladas do seu relógio. Esse filósofo chamava-se Immanuel Kant.
Nascido em Königsberg (atual Kaliningrado), na antiga Prússia, em 1724, Emanuel Kant (que depois mudaria seu nome de batismo para Immanuel), foi o quarto de nove filhos do casal Johann Georg Kant, um artesão, e Anna Regina Reuter, uma religiosa pietista praticante. A mãe foi tão marcante na vida do filósofo que ele, como uma espécie de reação a tanto rigor religioso, manteve-se afastado da Igreja assim que cresceu, apesar de ter o ar inconfundível de um puritano alemão. Estudou no Collegium Fredericianum até entrar para a Universidade de Königsberg, aos 16 anos. Foi lá que se deparou com a filosofia de Leibniz e de Isaac Newton duas de suas grandes influências, mais tarde trocaria correspondências com Voltaire (outra grande influência). Com a morte de seu pai, seis anos após ingressar na universidade, precisou lecionar como tutor, o que o fez interromper seus estudos, mas não evitou que os concluísse com sucesso. Sua dissertação de mestrado, em 1755, intitulou-se "Novo Esclarecimento Acerca dos Primeiros Princípios Metafísicos ou simplesmente Nova Dilucidatio (título em latim). Em seguida tornou-se Privatdozent, espécie de professor particular sem remuneração pela universidade e, sim, pelos alunos que conseguisse, tendo sido bem-sucedido, porquanto muitos dos seus cursos se repetiram várias vezes, durante anos, em vista da demanda de alunos. Somente em 1770 é nomeado professor ordinário de lógica e metafísica. Só deixou sua cátedra por motivo de debilidade e velhice, sete anos antes de morrer, em 1804.

No mesmo ano da publicação de seu Nova Dilucidatio, no dia 1º de novembro, ocorrera também, um terrível aterremoto em Lisboa. Fato marcante em sua vida e na de muitos outros pensadores iluministas. Voltaire, por exemplo, escrevera no ano seguinte um poema de lamento pela condição humana (uma de suas críticas a "o melhor dos mundos possíveis" de Leibniz) e Kant, por sua vez, escrevera três pequenos trabalhos, que juntos foram publicados sob o título de Escritos Sobre o Terremoto de Lisboa (donde teceria o conceito de sublime, desenvolvido, anos depois, em sua Crítica do Juízo. Mais tarde, em 1762, após ler Emílio e O Contrato Social, rende-se a mais uma grande influência dessa vez, trata-se do genebrino Jean-Jacques Rousseau. "Quando Kant leu Emílio, não deu seu passeio matinal sob as tílias, a fim de terminar logo o livro. Foi uma acontecimento, em sua vida, encontrar ali outro homem que tateava para sair da escuridão do ateísmo e que afirmava audaciosamente a prioridade do sentimento em relação à razão teórica naqueles casos supra-sensíveis" (DURANT, 2000). Essas influências culminariam com a David Hume que, segundo o próprio Kant, foi quem o despertou do "sono dogmático". Curiosamente, esses mesmos homens que lhe serviram de influência seriam os que, mais tarde, ele procuraria refutar - "[...] a diferença radical, fundamental, que existe entre Kant e seus predecessores é que os predecessores de Kant, quando falam do conhecimento, falam do conhecimento que vão ter, do conhecimento que se vai construir, [...] da ciência que está em constituição, em germe [...], quando Kant fala do conhecimento, fala de uma ciência físico-matemática já estabelecida [...], refere-se ao conhecimento científico-matemático da Natureza" (MORENTE, 1979).

A EUROPA ILUMINISTA
A Europa iluminista tem seus fundamentos bem definidos na Europa renascentista, do retorno à Antiguidade Clássica, da valorização do homem, em que o jargão socrático "Conhece-te a ti mesmo" é retomado. Novamente Sócrates, e nãopor acaso, uma vez que, logo de início, foi estabelecida aqui uma relação entre ele e Kant, ao citá-los como dois grandes "divisores de água" na Filosofia. O Iluminismo, ou Era das Luzes, como também ficou conhecido, desabrochou em uma Europa marcada por grandes transformações sociopolíticas, na qual a França fora uma das protagonistas. Os pensadores iluministas franceses se autodenominavam "les philosophes", muitos deles burgueses e boêmios, mas todos, sem exceção, cidadãos da "república das letras" - espírito que se generalizou em clubes, cafés e salões literários. "Les philosophes tornam-se sinônimo de subversão e pornografia por defender e praticar a liberdade de pensamento, de que resulta uma nova concepção do mundo e do homem" (ABRÃO, 2004). Dentre eles estavam Voltaire, Diderot, a d'Alembert, Montesquieu, Rousseau e a Condorcet.

David Hume 
Filósofo nascido em Edimburgo, na Escócia, o filósofo britânico David Hume (1711-1776) tem seu nome fortemente associado ao empirismo e ao Iluminismo. Escreveu Tratado da Natureza Humana e suas ideias influenciaram autores como Auguste Comte e Karl Popper.
d´Alembert 
Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783), filósofo, matemático e escritor francês, um dos destacados participantes e editores daEncyclopédie.
Condorcet 
Filósofo e matemático francês, Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat (1743-1794), o Marquês de Condorcet, exerceu também cargos políticos.
O Iluminismo alemão não precisou de uma "revolução" como a "francesa", no entanto, a futura Alemanha, que nada mais era, naquela época, que um aglomerado de Estados, que via sua língua sendo preterida ao latim ou ao francês, consequentemente não ficou incólume a uma revisão geral de valores, ambiente ideal para uma "crítica radical", até mesmo da própria razão, que recebeu o nome de Aufklärung. É nesse contexto que Kant, então, propõe que a razão "estabeleça um tribunal que, ao mesmo tempo que assegure suas legítimas aspirações, rechace todas as que sejam infundadas, e não o fazendo mediante arbitrariedades, mas segundo suas leis imutáveis".
O idealismo transcendental kantiano, como ficou conhecida a filosofia do pensador de Königsberg, não é de fácil compreensão, mas pode ser estudado em suas duas grandes obras: Crítica da Razão Pura (1781) e Crítica da Razão Prática (1788). Conta-se que Herz, depois de receber o manuscrito da Crítica das mãos do próprio Kant, o teria devolvido, sem lê-lo por completo, dizendo temer "ficar louco" se o fizesse "Kant é a última pessoa do mundo que devemos ler sobre Kant" (DURANT, 2000). Essa dificuldade em lê-lo se deve a que, ao elaborar sua estratégia de ataque aos critérios do conhecimento, o filósofo, antevendo os ataques que também receberia de seus oponentes, decide, perspicazmente, que deveria "falar outra língua", tecer suas ideias em uma linguagem própria, de difícil compreensão vulgar. Assim, para combatê-lo, é necessário subir às suas alturas, onde seu contestador terá de escolher entre "respirar ou lutar", "Aproximemo-nos dele por desvios e com cautela, começando a uma distância segura e respeitosa; [...] e depois avancemos tateando em direção àquele sutil centro em que o mais difícil dos filósofos guarda o seu segredo e o seu tesouro".
Em 1784, em um pequeno artigo, intitulado Beantwortung der frageWas ist Aufklärung? (Resposta à pergunta: O que é o esclarecimento?), Kant diz: "Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento". Como se pode ver, conquistar a maioridade é uma questão que está nas mãos do próprio indivíduo, na medida em que se assume como "livre, autônomo e racional".

Parmênides 
Filósofo e poeta grego, nascido em uma região hoje pertencente à Itália, Parmênides de Eléia (530 a. C - 460 a.C) é considerado um dos mais relevantes pensadores da Grécia Antiga. Escreveu a obra poética Da Natureza.
Se o Iluminismo buscou o esclarecimento do ser humano, a antropologia kantiana caiu, por assim dizer, como uma luva nesse movimento sociopolítico, artístico-cultural, da burguesia europeia. A indagação "O que é o homem?", em Kant, encontraria resposta a partir de três outras questões: "O que se pode saber?", "O que se deve fazer?" e "O que é lícito que se espere?". Kant considerava "escandaloso" que em mais de dois mil anos de pensamento filosófico nenhum pensador tenha sido capaz de "realmente" provar se há ou não "um mundo lá fora", externo a nós. Destarte, lançou- -se a dar uma solução ao "impasse" estabelecido entre racionalistas, como Descartes, e ceticistas, como Hume. Na filosofia racionalista de Leibniz, reaparecera a teoria dos "dois mundos", enquanto isso, os empiristas se empenhavam em criticar as pretensões da metafísica. Para dar conta desses mundos, aparentemente tão díspares, e dessas filosofias, presumivelmente irreconciliáveis, o sábio de Königsberg vai distinguir 3 modos de saber: a sensibilidade (Sinnlichkeit), o entendimento discursivo (Verstand) e a razão (Vernunft ). A partir daí é que ele destrincha, em sua Crítica da Razão Pura, as possibilidades do conhecimento e o fundamento da sua validade. "O espaço e o tempo separam- -nos da realidade das coisas em si. A sensibilidade limita-se a apresentar fenômenos ao entendimento, coisas que são 'deformadas' ou elaboradas por essa sensibilidade" (MARÍAS, 1978). Em outras palavras: tudo o que chegamos a conhecer não passa de uma "construção" forjada por nossas sensações, uma espécie de "produto artificial", gerado por nossa inexorável submissão ao espaço e ao tempo, portanto, a posteriori; enquanto, o que está para além de nossa percepção sensorial (ou a priori) nos é inacessível. Eis o grande golpe que o filósofo de Königsberg desferiu contra a metafísica que se sustentara até então e à qual dedicaram seu valoroso tempo pensadores desde a Parmênides até Leibniz. Daí a razão de admoestar os pretendentes a metafísicos, dizendo: "É incontornavelmente necessário pôr de lado provisoriamente seu trabalho, considerar tudo o que aconteceu até agora como não acontecido e antes de todas as coisas formular primeiramente a pergunta: se algo como a metafísica é simplesmente possível?".
Porém, se a metafísica clássica fora posta em "seu devido lugar" por Kant, a própria razão também o foi, porquanto foi dito a ela o que pode e o que não pode vir a conhecer. Isso estabelecido, segue, então, o filósofo para a parte prática no campo do conhecimento e escreve a sua Crítica da Razão Prática. Dali emana toda a "ética kantiana", a partir da qual lhe vem o "imperativo categórico", "Age de tal modo que trates a humanidade tanto na tua pessoa como na pessoa de todo outro sempre e ao mesmo tempo como um fim e jamais simplesmente como um meio [...]". Kant resgata a antiga tradição socrática quando postula uma máxima que não deixa dúvidas de que o indivíduo "esclarecido" é o mais "apto" a exercer a virtude e praticar o bem. É, então, sob essa nova égide que a Filosofia passará a desenvolver sua teoria do conhecimento, sabendo bem até que ponto a razão humana é capaz de penetrar em certos domínios e empreender ali sua atividade por excelência: conhecer. Também é a partir daí que o homem deverá compreender "o dever", não como obrigação, mas no sentido de "integridade", assumindo-se definitivamente como um ser racional. Essa nova noção de "dever" consiste na passagem do alienum júri (quando o indivíduo age coagido por leis exteriores ou por vontade de outrem) para o suis júri (quando o indivíduo age por uma espécie de vontade ou determinação própria, interior). O conceito de autonomia, em Kant, tem sua base em Rousseau, ele apenas a transferiu do âmbito político para o da moral.

ADMIRADORES E CRÍTICOS DE KANT
Sendo, como já foi dito, um "divisor de águas" na Filosofia, Kant conquistou adeptos e admiradores, e também críticos ferrenhos. Friedrich W. Nietzsche, por exemplo, provavelmente tendo visto nele algo de muito similar a Sócrates (eis que surge outra vez aquela "ligação"!), tratou de apontar seu "idealismo romântico" como mais uma tentativa de negar os mais viris instintos do homem, impondo-lhe uma moralidade "de fora para dentro", capciosamente travestida de "imperativa", ou seja, inegável e necessária ao agir racional, em direção ao bem que ele deve sempre almejar. Embora tenha declarado que Sócrates fora o instaurador da metafísica no mundo, enquanto Kant é reconhecido como odestruidor dela, Nietzsche dirá que "esse chinês de Königsberg" foi, como todos os outros filósofos antes dele, seduzido pela "santa supremacia da moral" e, assim como Lutero dera sobrevida ao cristianismo, em vez de enterrá-lo, Kant fizera o mesmo com a metafísica, como podemos ver nesse trecho do prefácio de Aurora: "Kant era, justamente, com um tal propósito delirante, o bom filho do seu século, que mais que qualquer outro pode ser denominado de o século do delírio [...]. Também ele foi mordido pela tarântula moral Rousseau, também ele tinha no fundo da alma o pensamento do fanatismo moral [...]. Pode-se talvez [...] lembrar-se de algo aparentado a Lutero, naquele outro grande pessimista [...]". Até mesmo Arthur Schopenhauer, tão influenciado por Kant, ao perceber que sua segunda Crítica resgatava ideias religiosas, como Deus, liberdade e imortalidade (aparentemente destruídas na primeira), atirou: "A virtude de Kant, que a princípio se voltava para a felicidade, perde sua independência mais tarde e estende sua mão pedindo uma gorjeta".

"Kant era, justamente, com um tal propósito delirante, o bom filho
do seu século, que mais que qualquer outro pode ser denominado
de o século do delírio [...]. Também ele foi mordido pela tarântula
moral Rousseau, também ele tinha no fundo da alma o pensamento
do fanatismo moral [...]"
A filosofia kantiana, embora reconhecidamente elevada, complexa e até incompreensível, não se mantém sempre nas alturas ela, em vários momentos, desce à instância dos pobres mortais, quando, apesar de mantidas as características do seu autor, trata questões como a educação, a justiça e a teologia. Em sua obra Sobre a Pedagogia (conjunto de notas retiradas de suas preleções no curso de Pedagogia), Kant vai dizer que o fim último da educação é a liberdade "Deve-se começar a educar a criança pela lei que está dentro dela", propõe. O livro Emílio, de Rousseau, o impressionou de tal forma que Kant, ao dividir seu projeto pedagógico em duas partes a educação física e a educação moral, pautou a primeira em tudo o que lera na obra do pensador francês. Em Kant, a educação deve ter como objetivos a formação do caráter e a conscientização dos deveres do indivíduo para consigo mesmo. Disciplina, instrução, formação e cultura estão na base estrutural da pedagogia kantiana. Prudência e moralidade são as duas características fundamentais daquele que recebeu a devida educação, de forma que saiba e possa viver em sociedade (uma sociedade no estrito sentido do idealismo kantiano, é claro!) "Reformando-se o homem, reforma- se também a sociedade, e eis que surge operfeito cidadão". Ao que parece, a concepção kantiana de "homem" destoa daquela defendida por Rousseau, do "bom selvagem", uma vez que o francês acusava a sociedade (com seus agressivos processos civilizatórios) pela deturpação do "homem natural" e o alemão primava pela formação cultural do ser humano para seu pleno desenvolvimento como cidadão "A Educação é uma arte, cuja prática necessita ser aperfeiçoada por várias gerações precedentes. Cada geração, de posse dos conhecimentos das gerações precedentes, está mais bem aparelhada para exercer uma educação que desenvolva todas as disposições naturais na justa proporção de conformidade com a finalidade daquelas e, assim, que caminha toda a espécie humana seu destino". Kant pensava no homem, não como "um ex-bom selvagem", mas como um "futuro melhor ser humano".

Embora muitas pessoas tenham a tendência a relacionar moralidade com religião, acreditando erroneamente que sem a religião os valores morais se perderiam, a ética kantiana passa longe de qualquer concepção ou tendência religiosa, da mesma forma que, em seu projeto pedagógico (do qual acabamos de tratar), uma educação ou formação religiosa é incogitável. Nem tanto porque o Iluminismo tenha sido uma proposta de domínio do pensamento racional sobre o teológico, mas simplesmente porque Deus, alma, reencarnação e imortalidade estão para Kant naquele patamar metafísico, no qual todas as lucubrações não passam de especulações mentais vazias de sentido racional, uma vez que, como o próprio Kant vai dizer, nossa razão jamais terá acesso a eles. Logo no Prefácio da 1ª edição (1793) de sua obra A Religião nos Limites da Simples Razão, lemos: "A moral que é baseada no conceito do homem, enquanto ser livre que por isso mesmo se obriga, por sua razão, a leis incondicionais, não tem necessidade nem da ideia de um ser diferente, superior a ele para conhecer seu dever, nem de outro móvel a não ser a lei pela qual o observa", donde percebe-se claramente como o filósofo desvincula Deus e a Religião em geral da questão moral do homem.
"O nosso filósofo [...] sentiu, à medida que envelhecia, uma grande
vontade de preservar para ele e o mundo pelo menos os pontos
essenciais da fé tão profundamente inculcada nele por sua mãe" (DURANT, 2000)
Trazendo de volta, outra vez, aquele link proposto desde o início entre Kant e Sócrates, não seria descabido dizer que a postura ética do filósofo ateniense diante da sentença que lhe foi proferida, com sua recusa em fugir de Atenas, como sugerido por seus amigos e discípulos, para livrar-se da morte por envenenamento, é sem dúvida a postura moral defendida por Kant.
Embora tendo sido criado por uma mãe extremamente religiosa e sob seus rigores devocionais, o pequeno Immanuel cresceu avesso à Igreja e a qualquer credo religioso. No entanto, segundo alguns autores, seu fervor religioso apenas estava envolto e escondido dentro de um coração racional "O nosso filósofo [...] sentiu, à medida que envelhecia, uma grande vontade de preservar para ele e o mundo pelo menos os pontos essenciais da fé tão profundamente inculcada nele por sua mãe" (DURANT, 2000). Não devemos esquecer, no entanto, que as questões de fé, como Deus e a alma imortal, por exemplo, são um prato cheio para a metafísica a primeira vítima do idealismo transcendental kantiano "Por exemplo, podemos desejar afirmar que Deus é a causa do mundo, mas causa e efeito é outro conceito a priori, como substância, que Kant acreditava ser válido apenas para o mundo percebido, mas não para as coisas em si. Então, a existência de Deus (considerado, como geralmente é, um ser independente do mundo conhecido) não é algo que possa ser conhecido" (O Livro da Filosofia, Ed. Globo, 2011).
Em A Religião nos Limites da Simples Razão, Kant propõe um culto e um comportamento religioso estritamente racional. Assim, ir à igreja, tanto quanto ler um livro considerado sagrado, deveria ser uma atividade simples que, no entanto, lembrasse ao devoto que o divino que ali está sendo cultuado é aquele que representa nele mesmo (o fiel) a mais alta moralidade, do contrário, tal ato poderia preencher seu coração, (como é sabido que o faz), mas, em contrapartida, serviria de testemunho de uma mente vazia, irracional "[...] a pura fé literal corrompe mais do que melhora o verdadeiro pensamento religioso". Provavelmente nenhuma das igrejas e credos que conhecemos atualmente escaparia à crítica movida pelo nosso nobre idealista à religião. No entanto, é muito provável também que ele admitisse, ainda que a contragosto, o quanto elas são "um mal necessário", considerando-se o que ele disse: "Só existe uma religião (verdadeira), mas podem existir muitas formas de crenças. Pode-se acrescentar que nas diversas igrejas que se separam umas das outras por causa da diversidade de seu gênero de crença, pode-se, no entanto, encontrar uma só e mesma religião", porém, acrescentou: "mas somente a pura fé religiosa, baseada inteiramente na razão, pode ser reconhecida necessária, como a única, por conseguinte, que se distingue a verdadeira igreja". Essas declarações do filósofo não foram bem acolhidas pelo recém-chegado ao trono da Prússia, a Frederico II, que era contrário às medidas iluministas do seu antecessor (Frederico, o Grande), e proibiu o pensador de se pronunciar sobre religião, no que foi prontamente atendido, até sua morte, em 1797.

Frederico II 
Filósofo nascido em Edimburgo, na Escócia, o filósofo britânico David Hume (1711-1776) tem seu nome fortemente associado ao empirismo e ao Iluminismo. Escreveu Tratado da Natureza Humana e suas ideias influenciaram autores como Auguste Comte e Karl Popper.
Grandes Guerras 
As duas Grandes Guerras foram: Primeira Guerra Mundial (1914-1918) envolvendo a vitoriosa Tríplice Entente (EUA, Reino Unido, França, Rússia, entre outras nações) e os impérios aliados das Potências Centrais (Império Alemão, Império Austro-Húngaro, Império Otomano). A Segunda Guerra ocorreu de 1939 a 1945 e teve como oponentes o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e os triunfantes aliados (Reino Unido, França, União Soviética e EUA, entre outros países).
IMPERATIVO CATEGÓRICO KANTIANO
O imperativo categórico kantiano não se pretende uma "máxima ecumenicorreligiosa", mas caberia muito bem em qualquer dos Evangelhos, sem destoar das pregações do Cristo "Não julgueis, e não sereis julgados. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos" (Mateus, 7:1-2). Kant acreditava fielmente na capacidade do ser humano de dominar seus instintos mais perversos através da assunção de suaracionalidade. Ele tentou a todo custo, em sua obra, deixar isso bem claro "[...] amalignidade da natureza humana não deve, na verdade, ser chamada de maldade, se esta palavra for tomada em sentido rigoroso, isto é, como intenção (princípio subjetivodas máximas) de admitir o mal enquanto mal como motivo em sua máxima (pois isso seria uma intenção diabólica), mas, antes, perversão do coração, o qual segundo a consequência, é designado então igualmente de má vontade. Esta não é incompatível com uma vontade em geral boa: provém da fragilidade da natureza humana [..]". Se isso por si só não bastar para fundamentar o argumento que acabo de levantar, que tal, então: "Toda má ação, quando procuramos sua origem, deve ser considerada como se o homem tivesse chegado a isso diretamente do estado de inocência"? Com isso ele pretendia dizer: "Se estivesse em pleno usufruto de sua autonomia, de sua liberdade e de sua racionalidade, jamais cometeria um ato infame, ainda que forças volitivas em seu espírito tentassem movê-lo a tal!". Alguns comentadores do filósofo e de sua "máxima moral" perceberam também a proximidade que há entre ela e o ideal religioso: "Vivamos de acordo com este princípio, e em breve iremos criar uma comunidade ideal de seres racionais; para criá-la, precisamos apenas agir como se já pertencêssemos a ela; [...] só assim poderemos deixar de ser animais e começar a ser deuses" (DURANT, 2000).

Sim! O idealismo kantiano, visto por nós, homens do século 21, que sabemos perfeitamente que aquelas luzes do século 18 não foram capazes de iluminar suficientemente as mentes e os corações dos homens, de modo a evitar duas aGrandes Guerras, no século 20, e toda uma série de outras pequenas e grandes calamidades perpetradas pela malignidade humana, sim! O idealismo kantiano pode ser chamado de utópico. Mas não esqueçamos que "utopia" não significa apenas o lugar impossível, irreal. Ela também é o "lugar dos sonhos", e por que, então, não poderia ser também "o lugar dos nossos objetivos"? Um homem pequeno e franzino viveu toda sua vida sem nunca tirar o pé de sua cidadenatal. Influenciou dali mesmo outros homens que, como ele, ousaram edificar um mundo melhor. Destruiu os pilares de uma pseudociência, chamada metafísica, desconstruindo assim os argumentos de nobres pensadores de mais de 20 séculos. Sem ser religioso, viveu dentro da mais estrita moralidade e no respeito ao seu semelhante. Morreu aos 79 anos, sem ter casado, sem ter filhos, tão simples quanto veio ao mundo, contudo, ciente do "dever" cumprido. Se essa história é mesmo, como os anais atestam, verídica, é melhor que alguém entre nós, homens do século 21, assuma imperativa e categoricamente a nobre tarefa de dar uma resposta a esta pergunta: O que, afinal, é utopia?

REFERÊNCIAS
ABRÃO, Bernadette Siqueira (Org.), A História da Filosofia, Nova Cultural, 2004;
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, São Paulo: Ática, 1998;
DURANT, Will, A História da Filosofia, Ed. Nova Cultural, 2000;
KANT, Immanuel, A Religião nos Limites da Simples Razão, Ed. Escala, 2008;
MARÍAS, Julián, História da Filosofia. Porto: Edições Sousa & Almeida, 4ª edição, 1978;
MORENTE, Manuel García. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Editora Mestre Jou, 7ª edição, 1979; NIETZSCHE, Friedrich W., Aurora Ed. Escala, 2007.
* Jaya Hari Das é filósofo, criador da Terapia Hari, diretor/fundador do MOFICUSHINTH. E-mail: moficushinth@yahoo.com.br


Texto retirado da revista Filosofia: Conhecimento Prático - Editora Escala








O poder do saber


Na visão foucaultiana, a sociedade moderna caracteriza-se pela produção de indivíduos docilizados pela ação de formas de micropoder baseados no sistema disciplinar formado por escolas, fábricas e prisões
por Ana Paula Meyer Velloso*

Com o advento do Estado Moderno, Michel Foucault (1926-1984) acreditava que surgira uma liberal democracia com seu quadro jurídico formalmente igualitário e o estabelecimento das instituições representativas, mas, ao lado desse poder codificado juridicamente sob a forma de soberania popular, surgia uma nova instância de poder extrajurídica: a disciplina. A forma jurídica geral, que garantia direitos igualitários a todos, tinha como substrato esses mecanismos cotidianos e físicos, esses sistemas de micropoder essencialmente não igualitários e dissimétricos constitutivos da disciplina. A sociedade moderna, para Foucault, se baseia na produção do indivíduo disciplinar.
De acordo com Foucault, as sociedades modernas são formadas por uma rede de instituições disciplinares: a escola, a fábrica, a caserna. O sujeito é constituído por práticas disciplinares. A sociedade como um todo é constituída sobre o modelo carceral, formado pelas suas instâncias de vigilância, controle. O objetivo dessas práticas era a produção de corpos dóceis, a produção social da docilidade por meio das tecnologias do poder. As relações sociais modernas têm na base uma relação de força que é constituída historicamente, a ordem civil é apenas aparente, uma trégua que se instala, as lutas e conflitos sociais são resquícios dessa guerra.
De dentro dessas instituições disciplinares que formam a sociedade, o poder emana não somente do estado, mas também dos indivíduos, mais precisamente dos indivíduos que detêm um certo conhecimento científico. Foucault sempre demonstrou desprezo pela objetividade do saber e da ciência, defendendo a ideia de que o saber não é objetivo, pois sua validade é comprometida por uma gênese extracientífica, funcionando a serviço de fins extracientíficos. A ciência das riquezas é substituída pela economia política, cujo cerne secreto está no trabalho, a história natural é substituída pela biologia, cujo núcleo invisível é a vida, e a gramática geral é substituída pela filologia, cuja essência latente é a história. Se o homem se define por suas relações com a vida, o trabalho e a linguagem, as ciências do homem tendem a girar em torno da biologia, da economia política e da filologia. Mas, para Foucault, nenhuma delas pode ser considerada ciências humanas, pois o objeto dessas ciências não é o homem, como deveria ser, e sim a representação que o homem tem em um ambiente criado.
Poder e saber são correlativos. Não há poder sem seu regime de verdade, cada sociedade tem os tipos de discursos que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros e também possui os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os discursos falsos dos verdadeiros. Foucault idealizava uma consciência intuitiva, não contaminada pela razão, ele não combate o saber, não exalta o não saber. Apenas registra a funcionalização do saber a serviço do poder.

VIGIAR E PUNIR
Livro adotado em cursos de direito, filosofia, ciências sociais, história
e pedagogia, Vigiar e Punir, do filósofo francês Michel Foucault, estuda
a história das legislações e das técnicas coercitivas. Lançado na França
em 1975, a obra de Foucault é dividida em quatro partes: "Suplício", "Punição",
 "Disciplina" e "Prisão". Uma de suas passagens mais célebres narra o "panoptismo",
com a descrição do Panóptico, centro penitenciário desenvolvido pelo filósofo
utilitarista Jeremy Bentham (1748-1832), cujo sistema de vigilância, no qual os
presos não sabiam se estavam ou não sendo observados, serviu como metáfora
para o poder disciplinar no mundo moderno.

*Ana Paula Meyer Velloso é mestre e doutoranda em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Mente e corpo, um dilema


Desde Descartes, o problema mente-corpo é um dos grandes enigmas da filosofia. Com as novas descobertas científicas, o pensamento contemporâneo tem se esmerado em tentativas de responder a essa instigante questão 
por Daniel Borgoni*
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Nossa mente é provavelmente a coisa que temos de mais íntimo, e a ela vinculamos os nossos pensamentos, tristezas, alegrias, angústias, intenções, julgamentos, e assim por diante. Contudo, quando tentamos compreender de modo sistemático e coerente a natureza das relações entre a nossa mente e o nosso corpo, nos defrontamos com o problema mente-corpo. Configura-se como um problema porque o cérebro é um sistema físico, público e extenso, mas os fenômenos mentais, principalmente aqueles que envolvem consciência, parecem ser essencialmente subjetivos, inacessíveis à observação e à mensuração e, portanto, escapando a uma apreensão científica.
Sob um ponto de vista histórico, Descartes foi o precursor deste problema ao defender que pensamento e corpo estavam em realidades completamente distintas, que se relacionavam causalmente. Como explicar esta interação entre algo imaterial e algo material? Descartes a explicou postulando que a glândula pineal era a interface entre mente e matéria, mas a sua solução apenas transferia as dificuldades impostas pelo seu dualismo.
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Outros modernos enfrentaram o desafio posto por Descartes, mas sem respondê-lo definitivamente. Já no século 20, motivados pela explicação de muitos fenômenos do mundo pelas ciências e pelas descobertas sobre o cérebro, os pensadores engajaram-se em linhas de pesquisa que visavam explicar as relações entre o mental e o corporal, principalmente por meio de abordagens materialistas. Assim, de forma geral, surgiram diversas teorias que tentavam encontrar correlatos comportamentais ou neurofisiológicos para nossos estados mentais, isto é, nossos desejos, crenças, intenções, pensamentos, sensações, percepções, entre outros tipos.
Com o intuito de apresentar o debate filosófico contemporâneo envolvido no problema mente-corpo, abordaremos algumas teorias materialistas que tentam respondê-lo, a saber, o behaviorismo analítico, a teoria da identidade e o funcionalismo. Apresentaremos suas propostas e soluções teóricas ao referido problema, então trataremos de algumas objeções que incidem sobre elas, demonstrando o caráter problemático envolvido nesta discussão.
Carl Hempel 
Filósofo alemão, Carl Gustav Hempel (1905- 1997) dedicou sua carreira a estudar as conexões entre a filosofia, a matemática e a física. Doutor em Filosofia, Hempel participou do Grupo de Berlim e do Círculo de Viena e, após se mudar para os EUA em 1937, lecionou nas universidades de Chicago, Princeton e Yale, além de ter se tornado professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém.

O BEHAVIORISMO ANALÍTICO
A primeira tentativa contemporânea de solucionar o problema mente-corpo e escapar dos problemas do dualismo foi o behaviorismo analítico. De forma geral, seus partidários objetivam reduzir os termos mentais em descrições comportamentais. Para evidenciarmos isto, abordaremos inicialmente a versão mais dura desta teoria, representada aqui por Carl Hempel  , para então tratarmos do behaviorismo mais brando implícito na proposta de Gilbert Ryle.

Hempel, que foi membro do Círculo de Viena, contribuiu para o debate mente-corpo argumentando que nossos predicados mentais ("... é feliz", "... está com dor", "... tem raiva", "... está entusiasmado", etc.) poderiam ser completamente compreendidos através de uma análise do comportamento. Sua abordagem da mente se baseava na teoria verificacionista do significado, segundo a qual "o comportamento esgota o conteúdo epistêmico dos predicados mentais e que não há nenhum significado nos termos além daqueles que se deixam verificar empiricamente" (Smith, 2005, p.243).
De forma mais clara, esta teoria defendia que era possível traduzir as sentenças que se referiam aos termos mentais de uma pessoa em sentenças sobre seu comportamento sem que houvesse perda de significado, de modo que deveria ser rejeitado aquilo que não pudesse ser verificado empiricamente por estar desprovido de sentido. Por exemplo, o predicado mental "... está feliz" poderia ser traduzido pela descrição das expressões faciais de uma pessoa, tal como um sorriso, e assim por diante. Desse modo, a dicotomia imposta pelo dualismo cartesiano era dissolvida, na medida em que explicaríamos nossa atividade mental sob um ponto de vista empírico.
Inúmeras objeções foram levantadas contra esta forma de behaviorismo. Uma delas é a constatação de que o behaviorista de linha dura não consegue eliminar os termos mentais por meio da tradução destes para o comportamento, de modo que sempre existirão resíduos, isto é, termos mentais não analisados. Para tornar esta objeção mais clara, vejamos um exemplo que evidencia a impossibilidade de eliminarmos tais resíduos.
Como faríamos para descrever comportamentalmente o desejo de andar de bicicleta de João? Segundo a proposta de Hempel, poderíamos verificar se ele está colocando sua roupa de ciclista, ou arrumando sua bicicleta, ou enchendo os pneus, e assim por diante. Entretanto, o desejo de João envolve a referência a outros estados mentais, tais como a crença de que não existe uma fissura no quadro da sua bicicleta que lhe causará um tombo. Assim, torna-se necessário mais uma tradução do mental em comportamental para eliminar esta crença de João. Contudo, ela envolve a referência ao desejo de João, na medida que a sua crença de que não existe uma fissura no quadro de sua bicicleta é manifestada quando ele está preparando sua bicicleta, pois deseja pedalar. Desse modo, a análise de Hempel resulta numa tradução incompleta e parcial de nossa mente, tendo em vista que não consegue eliminar o mental da análise comportamental.
Uma proposta mais sofisticada do behaviorismo analítico pode ser representada pela proposta de Ryle, na medida em que esta não restringe uma tradução do vocabulário mental somente ao que é observável publicamente. Não mais baseado na teoria verificacionista do significado, sua abordagem incluía a noção de "disposição comportamental", ou seja, em uma análise do comportamento, não deveríamos incluir somente o comportamento real, mas, também, o comportamento potencial.

Podemos entender a noção de disposição, por exemplo, como a tendência que um torrão de açúcar tem em se dissolver quando mergulhado em água. Do mesmo modo que a solubilidade é apenas um conceito aplicável ao torrão de açúcar, "Ryle diria que a mente não é nada além de um conceito: um conceito que utilizamos para designar um conjunto de comportamentos e disposições exibidos pelas pessoas" (Teixeira, 2003, p.112).
Desse modo, ter uma disposição ou uma tendência comportamental não é estar em certo estado mental, pois não existiria uma entidade subjacente que chamamos "mente", mas estar sujeito a agir de determinado modo quando existirem as circunstâncias apropriadas. Em outras palavras, a disposição por parte de algo é satisfazer as condições de verdade de enunciados "se... então...". Exemplificando, se algumas condições forem satisfeitas, então estarei sujeito a expressar a dor que estou sentido no meu pé, seja por meio do meu gemido, das minhas caretas, massageando o meu pé, entre outras ações.
No behaviorismo de Hempel e de Ryle, nega-se a autoridade em primeira pessoa que alguém parece ter quanto ao conhecimento de seus estados mentais, isto é, não existe privilégio em relação a um observador externo, tendo em vista que defendem a ausência de sentido ou a não existência destes estados. Contudo, parece razoável afirmar que sou a melhor pessoa para falar da felicidade que estou sentindo ou da dor da picada de uma abelha, de modo que "felicidade" e "dor" parecem ser algo mais do que comportamentos ou disposições. Nesse sentido, "se ter dor ou ter uma crença não fosse nada mais do que comportar-se ou estar disposto a comportar-se de certa maneira, obteríamos a consequência absurda de que uma pessoa poderia ter que esperar até ter exibido o comportamento apropriado antes de poder relatar seu estado mental. (Maslin, 2009, p.123).
Como demonstrado, o behaviorismo analítico evita o problema das interações entre mente e corpo, na medida em que "mente" é traduzida em comportamentos ou disposições de comportamento, mas tal proposta parece não eliminá-la ou explicá-la completamente. Mediante tal difi- culdade, em meados do século XX, surgiu uma nova abordagem a esse problema.
U. T. Place e J. J. C. Smart 
Ullin Place (1924-2000), filósofo britânico, e John Jamieson Carswell Smart (1920-2012), filósofo australiano, foram desenvolvedores da teoria da identidade da mente, e figuram nas listas de maiores filósofos da mente do século 20.

A TEORIA DA IDENTIDADE
A teoria da identidade surgiu com U. T. Place e J. J. C. Smart  e tem na neurociência seu principal aliado. De acordo com eles, estados mentais são estados cerebrais, do mesmo modo que afirmamos que a água é um conjunto de moléculas de H2O, o relâmpago é uma descarga de elétrons entre o solo e a atmosfera, e os genes são sequências codificadas de moléculas de DNA.

Exemplificando, os partidários desta abordagem às relações mente-corpo afirmam que podemos identificar o estímulo das fibras-C do sistema nervoso com aquilo que chamamos "dor". Desse modo, o que eles defendem é que nossa terminologia psicológica, isto é, os termos que utilizamos para declarar nossos estados mentais, de fato, designariam nada mais que estados cerebrais.
A tomografia de emissão de pósitrons e a ressonância magnética funcional têm reforçado a tese da teoria da identidade pela técnica da neuroimagem. Nesse sentido, Maslin afirma que "o que a pesquisa tem revelado é que o exercício de certas capacidades mentais envolve, com certeza, regiões distintas do cérebro, que 'acendem-se' quando funções específicas são executadas" (2009, p. 79).
Porém, a equivalência "estímulo das fibras-C = dor" parece contradizer a Lei de Leibniz. Segundo esta, um objeto A é idêntico a um objeto B, se e somente se, todas as propriedades de A forem as mesmas que as propriedades de B, ou seja, A e B precisam ter as mesmas propriedades. Considerando que a teoria da identidade esteja correta, podemos atribuir as mesmas propriedades semânticas de nossos estados mentais aos estados do nosso cérebro, o que parece não ter sentido. Por exemplo, uma crença tem um conteúdo proposicional, pode ser verdadeira ou falsa, mas é incoerente atribuirmos "verdade" e "falsidade" aos estados cerebrais.
Outra objeção à teoria da identidade consiste na argumentação de que não podemos explicar totalmente o que é a dor identificando-a com o estímulo das fibras-C, na medida em que, a sensação de dor, assim como outras sensações, parece apresentar aspectos qualitativos subjetivos, que na filosofia da mente são chamados de qualia. Em outras palavras, explicar a dor não se restringe a uma explicação neurofisiológica, tendo em vista que sua natureza essencial parece ser apreendida somente do ponto de vista de quem a experiencia. De forma mais clara, posso ter um dente careado e estar sentindo dor, não expressá-la comportamentalmente, e mesmo se um dentista tirar um raio-x ou submetê-lo a algum outro escâner, não poderá afirmar com certeza que estou sentido dor.
Desse modo, nossos estados mentais parecem não permitir uma equivalência entre eles e estados cerebrais. Do mesmo modo que o behaviorismo analítico, a teoria da identidade procurou assimilar a perspectiva de primeira pessoa à perspectiva de terceira pessoa, mas parece que esta última não explica toda a nossa vida mental.

O FUNCIONALISMO
Diante das críticas ao behaviorismo analítico e à teoria da identidade, surgiu uma proposta que não era um dualismo, nem queria explicar toda nossa atividade mental em termos neurobiológicos ou comportamentais, mas que reconhecia que os estados mentais têm um nível de descrição que está acima do nível físico: o funcionalismo.

Os partidários desta teoria concebem a mente em termos de uma função. Podemos entender a função de uma coisa como o trabalho que ela realiza, tal como um termostato, que a partir dos dados do ambiente, pode acionar ou desligar o aquecimento. Mais sofisticado, um computador recebe dados de entrada (inputs) e, por meio de um algoritmo, isto é, um conjunto de instruções de um programa, os transforma em dados de saída (outputs). Diante do fato de que um computador pode utilizar diversos algoritmos, sua função é computar funções.
Hilary Putnam
Nascido em Chicago, EUA, Hilary Whitehall Putnam é um filósofo especializado em filosofia da mente e da linguagem, além da filosofia da matemática. Publicou obras como O Colapso da Verdade e Corda Tripla, ambos publicados no Brasil em 2008, pela editora Ideias e Letras
Tendo isto em vista, na década de 1970, Hilary Putnam  argumentou que o computador digital seria uma ótima analogia para nossas relações mente-cérebro, isto é, a mente corresponderia ao so ftware e o cérebro, ao hardware. Nesse sentido, os estados mentais de uma pessoa são definidos em termos de seu papel funcional/causal que exerceriam entre uma informação sensorial ou perceptiva (input) e o comportamento (output). Neste contexto, a "dor" é definida como o sistema de relações que ocorre entre uma picada de abelha no meu braço e o meu gemido. De forma mais clara, a lesão no tecido decorrente da picada e o meu gemido são eventos que isoladamente não definem o que é a dor. Para tanto, é necessário tomá-la como uma função que envolve relações causais entre a picada (input) e o gemido (output). Assim, um estado mental tem uma realidade abstrata, tal como a de um so ware, se sobrepondo a uma descrição física.
Desse modo, os funcionalistas afirmam que desde que um sistema tenha a organização funcional certa, estados mentais podem surgir, independentemente da matéria de que ele seja feito. Em outras palavras, Churchland afirma que "o que é importante para a existência de uma mente não é a matéria da qual a criatura é feita, mas a estrutura das atividades internas mantidas por esta matéria" (1998, p. 69).
Nesse sentido, do mesmo modo que um software pode ser rodado em diferentes computadores, se o funcionalismo estiver certo, podemos esperar que uma máquina que execute as mesmas funções que o nosso cérebro, exiba estados mentais iguais aos nossos. Do mesmo modo, supondo que um extraterrestre tenha um sistema nervoso completamente diferente do nosso, mas que tenha estados internos funcionalmente isomórficos aos nossos, terá uma vida mental como a de um ser humano.

John Searle 
O filósofo americano John R. Searle foi o entrevistado da edição 35 da revistaConhecimento Prático Filosofia.
Convergindo com a proposta funcionalista, inúmeros pesquisadores estavam engajados em criar programas que compreendiam estórias e procuravam simular fenômenos mentais humanos. Questionando tal possibilidade, John Searle , em seu artigo Mentes, Cérebros e Programas, ofereceu uma objeção ao funcionalismo conhecida como "o argumento do quarto chinês". Neste, Searle imaginou o que aconteceria se a mente de um humano funcionasse de acordo com os princípios desta teoria. Como se trata de um experimento de pensamento, devemos imaginar a situação proposta por ele.
Vamos supor que uma pessoa esteja em um quarto fechado cujo único contato com o exterior se dá por meio de uma portinhola. Ela recebe um primeiro texto em chinês, mas não conhece o chinês, nem reconhece seus símbolos, e sua língua nativa é o português. Suponha agora que ela receba um segundo texto em chinês e as regras de transformação em português, por meio das quais deve relacionar o conjunto de símbolos contidos nos dois textos. A pessoa recebe também um terceiro texto em chinês com outras instruções em português, que lhe permitem relacionar este último texto com os dois primeiros, devolvendo através da portinhola o resultado da manipulação dos símbolos.
Por não conhecer o chinês, a pessoa não sabe que o primeiro texto é um roteiro, o segundo é uma história e o último são perguntas. Desse modo, o que ela devolve através da portinhola são as respostas (output) das perguntas, de modo que podemos identificar as regras e instruções que recebeu em português com um programa de computador. Imaginemos agora que depois de um tempo fornecendo outputs, a pessoa manipula tão bem os símbolos formais em chinês que se um nativo ler as respostas, afirmará que quem respondeu as perguntas compreende o chinês.
Contudo, o nativo estaria errado, na medida em que esta manipulação de símbolos envolve sintaxe, mas não semântica, ou seja, a pessoa que está dentro do quarto fechado não compreende o que respondeu. Assim, de modo análogo, pode-se afirmar que um computador não compreende e o funcionalismo falha como modelo computacional da mente por não contemplar os conteúdos proposicionais de alguns de nossos estados mentais.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Vislumbramos brevemente o debate filosófico acerca do problema mente-corpo abordando algumas teorias materialistas que tentam elucidá- lo. Como demonstrado, incidem objeções sobre elas com as quais seus partidários têm que lidar, seja tentando respondê-las ou propondo novas interpretações para estas teorias.

Em outra direção argumentativa, muitos pensadores afirmam que as teorias materialistas não são capazes de explicar toda a nossa atividade mental, especialmente às questões relacionadas à consciência. Tendo isto em vista, alguns filósofos retornaram à abordagem dualista da mente, mas sob uma forma menos radical que a proposta por Descartes, a saber, o dualismo de propriedades.
Frank Jackson 
Frank Cameron Jackson é um filósofo australiano, e que ocupou o cargo de diretor da Escola de Pesquisas de Ciências Sociais na Australian National University. Lecionou, ainda, na Princeton University.
De forma geral, os novos dualistas, tal como David Chalmers e Frank Jackson  , afirmam que no mundo existem duas espécies fundamentalmente distintas de fenômenos, isto é, propriedades mentais e propriedades físicas. Para sustentar este ponto de vista, eles se baseiam em argumentos que defendem a existência de um hiato entre a nossa mente consciente e a matéria. Em outras palavras, quando tentamos explicar, descrever ou traduzir a nossa vida mental em termos de fenômenos físicos, parece haver uma lacuna que as teorias materialistas não conseguem fechar.
Os dualistas de propriedades afirmam que existe algo no mental que está para além do físico e que é vedado à apreensão empírica por não ser mensurável, nem observável. Eles tentam demonstrar que este "algo" - que parece estar presente principalmente nas sensações - apresenta aspectos qualitativos, são os qualia. Em outras palavras, eles defendem que alguns estados mentais carregam um caráter fenomenal que é inescrutável à ciência.
Assim, de forma geral, o debate atual acerca das relações entre mente e corpo concentra-se em torno de teorias materialistas e de diversos tipos de dualismo de propriedades, com predominância das primeiras. O que é certo é que pairam sobre nós muitos enigmas: existirão correlatos neurais para nossa experiência consciente? Nossa vida mental pode ser completamente explicada pelas ciências da natureza? Será que a consciência está para além da matéria? Conseguiremos algum dia explicar completamente a interação dos fenômenos mentais com o mundo físico? Não existe filosoficamente uma resposta consensual para estas perguntas. O problema mente-corpo nos desafia! Mais que isso, nos faz pensar quem somos.

REFERÊNCIAS
CHURCHLAND, P.M. Matéria e Consciência. Trad. Maria Clara Cescato. São Paulo: UNESP, 1998.
DESCARTES, R. Meditações Metafísicas. In: Os Pensadores. Trad. J. Guinsburg e Bento Prado Jr. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
JACKSON, F. Epiphenomenal Qualia. In: Philosophical Quarterly, v.32, p.127- 136, 1982.
MASLIN, K. T. Introdução à Filosofia da Mente. Trad. Fernando José R. da Rocha. Porto Alegre: Artmed, 2007.
SEARLE, J.R. Mentes, Cérebros e Programas. Trad. Cléa Regina de Oliveira Ribeiro. In: www. filosofiadamente.org
______. A Redescoberta da Mente. Trad. Eduardo Pereira e Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
_____. O Mistério da Consciência. Trad. André Yuji Pinheiro Uema e Vladimir Safatle. São Paulo: Paz e Terra, 1998.
SMITH, P.J. Do começo da filosofia e outros ensaios. São Paulo: Discurso Editorial, 2005.
TEIXEIRA, J.F. Mente, Cérebro & Cognição. Petrópolis: Vozes, 2003.
VELMANS, M. Como a experiência consciente pode afetar o cérebro? In: www.filosofiadamente.org. Trad. Pedro Rocha de Oliveira, 2002.
*DANIEL BORGONI é graduado em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (USTJ) e mestrando em filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pesquisa atualmente o problema da consciência no que diz respeito ao hiato explicativo e ontológico que parece existir entre consciência e matéria. E-mail: dborgoni@ hotmail.com

Texto retirado da Revista Filosofia: Conhecimento Prático


Longe de Aristóteles, longe do coração


Quando lemos ou ouvimos falar em ética, nos reportamos para a esfera política, tantos são os casos de corrupção. No entanto, a Ética, como apresentada nas obras de antigos gregos, não se limita apenas a isso; ela tem a ver com a conduta cotidiana de todo indivíduo, idealizada como a excelência da vida humana
Por Jaya Hari Das*



A partir do seu berço, a Antiga Grécia, o estudo da filosofia, passa inevitavelmente por três grandes nomes: Sócrates, Platão e Aristóteles. Este último, no entanto, foi o que apresentou uma espécie de enciclopédia de todo o saber que foi produzido e acumulado pelos gregos, em todos os ramos do pensamento e da prática, que, no conjunto, se chama de "Filosofia". Suas influências no mundo ocidental se propagaram por 20 séculos, e suas obras ainda são leitura obrigatória para os estudantes dos cursos de Filosofia da atualidade. Se devemos a Sócrates o início da filosofia moral, a Aristóteles devemos a distinção entre o saber teórico e o saber prático.
Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira, cidade macedônica ao norte de Atenas. Saiu de sua cidade natal e foi para Atenas a fim de tornar-se discípulo de Platão, na Academia. Gastou muito dinheiro com manuscritos (os livros da época) e foi um dos primeiros a organizar uma "biblioteca", por isso seu mestre sempre se referia à sua casa como "a casa do leitor". Foi ele quem propôs a existência de quatro fatores na relação causal: forma, matéria, motivo (que produz mudanças) e o fim (pelo qual ocorre um processo de mudança). A "forma" não é só o formato, mas a força que dá o formato, que modela a matéria, visando uma figura. Para Aristóteles, não há necessariamente aí uma "providência externa" projetando e executando acontecimentos terrenos. Por isso, ele cria o termo "enteléquia", "finalidade interior" ou "impulso interno". Assim, tudo é fruto apenas de "causas naturais". Elaborou as noções de ato (energeia) e de potência (dynamis). Ato seria o estado atual do ser, enquanto potência, aquilo em que esse ser se transforma. Assim, uma semente, enquanto ato, é apenas uma semente, mas, como potência, é uma árvore. A potência atualiza-se em ato sempre em vista de uma finalidade.
Práxis 
Práxis significa "prática e ação". O primeiro grande gênio da filosofia a utilizar o termo foi Aristóteles, mas ganhou impulso com o materialismo dialético do teórico alemão Karl Marx (1818-1883), autor de O capital.
Menão 
Menão, ou melhor, Mênon, é um diálogo de Platão, no qual Sócrates conversa com o estudante Mênon, da região de Tessália. O diálogo versa sobre virtude e a natureza do conhecimento, mente e alma. Uma dos personagens marcantes do diálogo é o escravo de Mênon, para quem Sócrates ensina fundamentos da geometria, provando a capacidade de aprendizado dos homens.
Mas Aristóteles compreendia muito bem que tudo também tinha ou provinha de uma "fonte" - ou seja, "toda causa precisa ter uma causa anterior". Donde desenvolveu a ideia do "motor imóvel" (primum mobile immotum) - um ser invisível, incorpóreo, indivisível, sem espaço, assexuado, sem paixão, sem alteração, perfeito e eterno. Esse ser não é exatamente "o criador do mundo", mas "aquele que o movimenta", como uma força mecânica imprescindível, a todas as coisas - pura energia (Actus Purus). É ele, também, quem dirá que a ética é um saber prático, pois refere-se à práxis  . Na práxis, o agente, a ação e a finalidade do agir são inseparáveis. Na práxis ética somos aquilo que fazemos e esse "fazer" tem em si mesmo uma finalidade boa e virtuosa.
Podemos dizer que Aristóteles não somente fundou a Ética como disciplina filosófica, mas também expôs a maior parte dos problemas que ocuparam a atenção dos "filósofos morais", uma vez que foi ele quem definiu o campo das ações éticas. Estas não são definidas apenas pela virtude, pelo bem e pela obrigação, mas também pertencem àquela esfera da realidade na qual cabem a deliberação e a decisão ou escolha.
O estudo da conduta ou do fim do homem como indivíduo é a Ética. Ela também é uma reflexão que leva o indivíduo a discutir, problematizar e interpretar o significado dos valores morais, que estabelecem a conduta e os costumes de cada sociedade, os quais, na maior parte dos casos, são acatados como se fossem algo natural, e não cultural. Ser ético, portanto, é agir de modo a não ferir um código moral preestabelecido, de tal forma que, uma vez sendo esse o procedimento de todos, resulte em um bem comum e em uma boa relação entre membros de uma sociedade.
SOBRE A VIRTUDE
No diálogo Menão  , Platão explora a questão da "virtude", perguntando-se se ela pode ser ensinada, se pode ser adquirida com exercícios, ou se nós a recebemos por natureza. Ali, Sócrates diz que antes deve-se saber o que é a virtude, pois, de outra forma, não haverá como saber como ela nos chega, ao que Menão rebate, questionando "como é possível buscar o que não se conhece?", uma vez que corre-se o risco de, mesmo o encontrando, não reconhecê-lo. Enquanto Platão tenta resolver esse embate de argumentos com sua teoria da "reminiscência" - acreditando que em nós já há um "conhecimento verdadeiro" sobre todas as coisas universais e necessárias, que pode ser acessado -, Aristóteles, seu discípulo, mantendo- -se fiel ao modo filosófico de pensar que pergunta pelo que é, prefere tomar este outro caminho, que se resume na máxima "não investigamos para saber o que é a virtude, mas a fim de nos tornarmos bons" (Ética a Nicômaco).

No sistema aristotélico, a ética é a ciência das condutas, cujo objetivo último é garantir ou possibilitar a conquista da felicidade (ética eudaimônica), e esta consistiria na realização humana e no sucesso daquilo que o homem pretende obter ou fazer, e o faz no seu mais alto grau de excelência, ou seja, para chegar aonde deseja, o homem deve desenvolver suas virtudes (areté).

Os escritos aristotélicos sobre a ética e a política são a chave para a compreensão da posição filosófica do pensador de Estagira acerca da filosofia da práxis. Ética a Nicômaco é a obra de Aristóteles menos questionada quanto a sua verdadeira autoria, embora haja uma série de textos, divulgados e explorados durante toda a Idade Média, que foram atribuídos a ele sem qualquer comprovação disso, compondo o chamado Corpus Aristotelicum.
Aristóteles elabora uma hierarquia de bens do desejo, considerando-os desiguaisapropriados e até impróprios, numa busca incessante de chegar a um bem que seja mais próprio ao homem, ou seja, o orientador da vida humana. As pistas para se encontrar esse "bem maior" se encontram nas seguintes proposições:
 deve ser perfeito, definitivo e suficiente por si mesmo para fazer feliz o homem que o possui, sem necessidade de mais nada;
 deve ser procurado por si mesmo e não em ordem de conseguir outro bem qualquer, o que faria do segundo maior que o primeiro;
 deve ser algo real e atual, presente, não uma simples potência, aptidão ou capacidade para adquirir um bem qualquer;
 não deve ser algo que vem ao homem de forma puramente passiva, como uma dádiva, mas deve ser fruto da ação humana, como uma conquista, na qual esteja envolvida a atividade humana que possa ser considerada a mais nobre, pois o fim deve ser o mais nobre;
 deve fazer o homem bom;
 deve ser algo firme, estável e contínuo, que dure por uma longa vida, não algo peremptório e efêmero, descontínuo e curto.

Feito isso, a tarefa se torna menos árdua, mas não menos complexa. Deve ser feita uma investigação do homem não como "ser estático", mas "em ação", em funcionamento; portanto, deve-se entender suas "funções". Descartadas as que são comuns ao homem e aos outros seres, como viver e sentir, chega-se ao viver conforme o logos - uma atividade da alma em consonância com a virtude. Assim, duas são as condições para que o homem alcance o seu bem próprio: saber qual é esse bem (condição necessária) e viver uma vida regulada pelo logos (condição suficiente), ao que o filósofo grego concluirá que a "virtude dianoética" do cultivo da sabedoria na "vida teorética" é a atividade que distingue o homem dos outros animais, sendo, portanto, a mais nobre, a mais desejada e superior. "Virtude dianoética", para Aristóteles, é a perfeição da alma racional. Duas são as virtudes dianoéticas: phrónesis, a sabedoria que diz respeito aos princípios dos homens, e sophia, a sapiência que diz respeito às verdades supremas.
Aristóteles acrescenta à consciência moral a vontade guiada pela razão, como outro elemento fundamental da vida ética. Segundo Marilena Chauí, "A importância dada por Aristóteles à vontade racional, à deliberação e à escolha o levou a considerar uma virtude como condição de todas as outras e presente em todas elas: a prudência ou sabedoria prática. O prudente é aquele que, em todas as situações, é capaz de julgar e avaliar qual a atitude e qual a ação que melhor realizarão a finalidade ética, ou seja, entre as várias escolhas possíveis, qual a mais adequada para que o agente seja virtuoso e realize o que é bom para si e para os outros" (1998).
Todas as ações humanas tendem a "fins" que são "bens". O conjunto das ações humanas e o conjunto dos fins particulares para os quais elas tendem, subordinando-se a um fim último, que é o "bem supremo", ou a felicidade. Esse "bem supremo", realizável pelo homem, consiste em aperfeiçoar-se enquanto "homem", isto é, consiste em uma atividade da alma segundo a sua virtude - havendo mais de uma virtude, então, segundo a melhor e mais perfeita. Diz ele: "Realizando ações justas, tornamo-nos justos; ações moderadas, moderados; ações corajosas, corajosos". Para Aristóteles, as ações acabam por se tornar "hábitos", "estados" ou "modos de ser", que nós mesmos vamos construindo, sem necessidade alguma de imposições ou coerções externas. Aristóteles proclama os valores da alma como valores supremos, embora, com seu forte senso realista, reconheça uma utilidade também nos bens materiais, em quantidade necessária, já que eles, mesmo não estando em condições de proporcionar a felicidade, podem, de certa forma, comprometer a realização dela com a sua ausência.
Aproveitando a deixa da "utilidade dos bens materiais", para não perder de vista aquilo que foi dito lá no início, voltemos à questão do exercício político e dos constantes deslizes praticados por aqueles que são eleitos democraticamente para, nos mais elevados cargos públicos, representar os cidadãos de uma cidade, estado ou país. O que temos visto, pelo menos no âmbito da política brasileira, é um sem-número de casos horripilantes de aquisição de bens materiais por parte de representantes impostores, por meio da malversação do erário público, da desmedida exploração de privilégios escusos e do conluio com bandidos e empresários corruptos e corruptores. Exemplos mais extremos de total e explícitafalta de ética, que, em hipótese nenhuma, deveriam fazer parte da conduta de um simples cidadão, por conseguinte, menos ainda de cidadãos que se tratam pelo nobre termo de "vossa excelência".
"Excelência", esta palavra foi citada em um outro parágrafo na sua denotação própria, mas, como vemos, não podemos dizer o mesmo sobre ela no parágrafo acima. Excelência, na conduta enquanto cidadão, exercendo ou não um elevado cargo público ou uma profissão de destaque na sociedade, como a de médico, padre, professor ou advogado (como ainda é de costume se ter em grande prestígio) é exemplo de "vida ética", não apenas para se tratar como assunto filosófico, mas, sobretudo, para se saber se o homem, mesmo com todos os percalços que lhe são impostos pela vida, ainda se conduz para e pelo bem.
Acima de tudo, Aristóteles diz que "A virtude tem a ver com paixões e ações, nas quais o excesso e a falta constituem erros e são censurados, ao passo que o meio é louvado e constitui a retidão". Daí desprende-se que agir com paixão é agir com o coração. Uma paixão comedida, é certo, porém, movida pelo desejo, o benfazejo desejo que almeja somente o bem. Não um bem particular e interesseiro, mas um bem coletivo e comum. Exercer uma profissão, para muitos, é como exercer um "dom", algo que parece estar na própria natureza do indivíduo, e que ele aparenta saber "de cor" como fazer, sem que ninguém o tenha ensinado. Um agir que ele sabe já em seu coração e que, exatamente por essa razão, deveria coincidir com o "agir ético". O coração é, para Aristóteles, o órgão principal no corpo humano, pois é a partir dele que todos os outros órgãos se desenvolvem, além de ser, também, produtor, o recipiente e o distribuidor do sangue - o alimento do corpo. E, como os órgãos da percepção - os olhos, os ouvidos, a pele - estão ligados ao coração pelos vasos sanguíneos, as diversas sensações acabam por confluir no coração, onde as impressões do mundo exterior são coordenadas. Refutando Platão, que situava a coordenação dos sentidos no cérebro, Aristóteles define o coração como lugar responsável pela percepção e, ao mesmo tempo, como o centro das emoções.
Muito tempo já se passou desde que o estagirita escreveu seu tratado ético, como um guia para a conduta humana e, infelizmente, a mediania, uma virtude imprescindível para Aristóteles, parece estar longe da mente e do coração da maioria dos homens de hoje que se propõem às atividades mais "nobres" da vida humana. Com isso, toda a coletividade é prejudicada e ainda é impingida a assistir a vitória da impunidade sobre outra importante virtude, a justiça. Como o próprio Aristóteles diz, em Política, "[...] é fora de dúvida que os homens que estão no poder precisam possuir alguma superioridade sobre aqueles que são governados". Porém, quando os representantes políticos, aqueles que deveriam servir de exemplo ao povo que o escolheu como "os melhores", são o produtores de atos corruptos e promotores de crimes contra os próprios cidadãos a quem representam legitimamente, dificilmente encontramos nessa sociedade valores éticos. Diante de tais evidências, concluímos que Ética pode até ser uma palavra bonita de se pronunciar, mas sua "beleza" só tem mesmo eficácia na ação. "Ademais, errar é possível de muitos modos, ao passo que agir retamente só é possível de um".
*Jaya Hari Das é filósofo, graduado pela Universidade Federal do Maranhão - UFMA, e diretor do MOFICUSHINTH - Movimento Filosófico "Cura do Ser Humano Integral" - Terapia Hari. E-mail: terapiahari1@yahoo.com.br Twitter: @JayaHariDas

Texto retirado da Revista Filosofia: Conhecimento Prático